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Tipos de plásticos
biodegradáveis |
Polímeros sintéticos convencionais como polietileno (PE), polipropileno (PP),
poli (cloreto de vinila) (PVC) e poli(tereftalato de etileno) (PET)
permanecem inalterados, química e fisicamente, por vários anos após seu
descarte [11-13]. Isto se deve ao fato de que a sua estrutura química não
permite que haja uma absorção danosa da radiação UV ou que estes se
degradem por outros mecanismos, nem que sofram degradação por ação
enzimática via micro-organismos como bactérias, fungos e algas. Além do
que, nas próprias formulações industriais há adição de aditivos foto e
termoestabilizantes que retardam a degradação.
Em contraste com estes polímeros citados anteriormente, há os polímeros
biodegradáveis (PBs), que dispõem de uma degradação ativada biologicamente
por meio da ação enzimática. Suas cadeias poliméricas também podem ser
quebradas por processos não-enzimáticos, como a hidrólise e a fotólise. Os
polímeros biodegradáveis são quase sempre derivados de plantas por meio do
processamento de CO2 atmosférico. As principais aplicações para PBs
incluem materiais para embalagens (sacolas, papel para embrulho,
recipientes para comidas, papel laminado), não-tecidos descartáveis,
produtos higiênicos (fraudas descartáveis, chumaço de algodão), bens
consumíveis (acessórios de mesa de fast foods, depósitos, brinquedos,
aparelhos de barbear descartáveis etc.) e utensílios agrícolas (filmes
para recobrimento de plantação, contêineres para germinação de sementes).
Limitações em sua performance e o alto custo dos PBs são as maiores
barreiras para sua aceitação como substituinte de polímeros
não-biodegradáveis. A alta performance de plásticos tradicionais é o
resultado de anos de pesquisa, porém, os PBs são agora de grande interesse
mundial graças a problemas ambientais e apelo social. O alto custo dos PBs,
comparado aos plásticos tradicionais, não é apenas por causa do valor da
matéria-prima para sua síntese. Ele é atribuído, principalmente, ao baixo
volume de sua produção. Este baixo volume está ligado à pequena
diversidade de aplicação e dificuldade no processamento destes polímeros.
Contudo, no momento em que novas e emergentes aplicações forem atribuídas
aos PBs, a produção dos mesmos irá aumentar. Realmente, o grande desafio
está no melhoramento do processamento e nas características do produto
final que atendam às necessidades exigidas pelo mercado.
O desenvolvimento dos polímeros biodegradáveis (PB’s) ainda está num
estágio inicial quando comparado com a performance dos polímeros de alta
longevidade. Porém, em algumas situações, as pessoas são iludidas pelos
fabricantes quando estes falam deste assunto, pois a palavra biodegradável
é erradamente usada em vários sentidos. Como citado anteriormente, a
biodegradação depende de uma ação enzimática e não somente da quebra de
ligações químicas por outros mecanismos, como acontece pela fotodegradação,
os quais não são sinônimos. Dentre os polímeros biodegradáveis, pode-se
citar duas classes, sendo uma a que insere os de ocorrência natural, e a
outra, os produzidos por meio de sínteses. Dentro dos de ocorrência
natural encontram-se o amido, a celulose, os polissacarídeos e a lignina.
Dentre os PBs obtidos de sínteses, podem ser alguns derivados de
poliésteres e os solúveis em água.
Mais que 1011 toneladas da biomassa são formadas, anualmente, pelo
processo da fotossíntese, consistindo a maior parte de amido, celulose,
outros polissacarídeos, e a lignina [14]. Estes, por sua vez,
apresentam-se como os mais promissores materiais biodegradáveis graças à
sua abundância natural e seu baixo custo. No caso específico da celulose,
esta não possui característica de ser processada como um termoplástico.
Para a obtenção de fibras e filmes, a celulose precisa ser modificada.
Alguns exemplos para esses casos são os derivados da celulose obtidos por
meio da acetilação – acetatos de celulose. Porém, nestas situações, o
nível de acetilação não pode exceder 2,5 por unidade de repetição, senão o
material deixa de ser biodegradável. Uma outra classe é a carboximetil
celulose (CMC) com diferentes níveis de substituição de carboximetila.
Neste caso, mais de uma substituição por unidade de repetição ocasiona
perda quase completa da sua biodegradabilidade. Os polissacarídeos mais
comumente encontrados na literatura de polímeros biodegradáveis são os
produzidos pela fermentação microbiológica, como o caso da Xantana e da
Pululana [14].
O amido é geralmente encontrado em raízes do tipo tuberosa (mandioca,
batata doce, cará), caules do tipo tubérculo (batatinha), frutos e
sementes (milho). O amido constitui um polímero de glicose (mais ou menos
1400 unidades de glicose) com ligação glicossídica. O amido constitui-se
de dois tipos diferentes de polissacarídeos: a amilose, com cerca de 1.000
unidades de glicose numa longa cadeia não ramificada enrolada em hélice, e
a amilopectina, com cerca de 48 a 60 unidades de glicose dispostas em
cadeias mais curtas e ramificadas. A razão entre a amilose e a
amilopectina variará de acordo com a fonte e afetará as propriedades
físicas do amido [15,16].
Em contraste com a celulose, o amido pode ser processado
termoplasticamente sem a necessidade de nenhum tipo de modificação,
contanto que tenha na formulação uma razoável quantidade de água. Sua
biodegradabilidade se deve, principalmente, aos átomos de oxigênio
presentes na cadeia principal e no anel. Algumas tentativas de obtenção de
blendas à base de amido já foram feitas, principalmente com poliésteres
[16,17], porém a propriedade mecânica final do produto ainda fica aquém do
desejado. Esta baixa performance é devida à sua natureza hidrofílica que
leva a baixa tensão interfacial entre os componentes da blenda. Alguns
pesquisadores utilizam alguns tipos de compatibilizantes ou usam técnicas
para modificação química do amido ou do outro componente da blenda a fim
de melhorar esta tensão interfacial [18-20]. Outros pesquisadores têm
preparado blendas de amido com polímeros solúveis em água [21-23]. Estas
pesquisas também têm como objetivo melhorar propriedades mecânicas do
amido e sua processabilidade, introduzindo na formulação alguns tipos de
plastificantes, como glicerol e aminoácidos. Em se tratando de
aplicabilidade, essas blendas ficam restritas a situações em que o tempo
requerido para sua decomposição não seja muito grande.
A biodegradabilidade dos poliésteres está diretamente ligada à presença do
grupo éster, que é facilmente hidrolisado, levando à quebra das ligações,
e pela ação de enzimas do tipo esterease, que são facilmente encontradas
no solo. A síntese do poli(ácido láctico) – PLA de alta massa molar foi
descrita por Carothers et al em 1932. Desde 1970, copolímeros baseados em
ácido láctico e ácido glicólico são utilizados em aplicações biomédicas,
como, por exemplo, matriz degradável para liberação controlada de drogas.
A produção biotecnológica do ácido láctico é feita pela fermentação de
carboidratos, a qual também produz enantiômeros de alta pureza. A obtenção
do PLA por síntese direta por meio da policondensação do ácido láctico
possui as características básicas da polimerização por etapa, tendo como
empecilho para obtenção de um polímero com alto peso molecular a presença
de etanol e ácido acético provenientes da fermentação [14,24]. Em 1997, a
empresa CargillDow começou a produzir o PLA pela polimerização via
abertura de anel do lactídeo dimérico. Dependendo do lactídeo, o PLA
produzido poderá ser altamente cristalino ou completamente amorfo. A alta
cristalinidade se deve à estereoregularidade dos referidos lactídeos,
enquanto a obtenção dos PLA amorfos ocorre em virtude da falta desta [25].
O PLA é um termoplástico rígido com temperatura de transição vítrea, Tg,
em torno de 60oC, e temperatura de fusão cristalina, Tm, entre 170oC e
180oC. A inserção de pequenas quantidades de meso-lactídeo pode reduzir a
estereoregularidade e produzir um material mais dúctil. Suas aplicações se
igualam ao poli(tereftalato de etileno) – PET na área de contêineres e
fibras para a indústria têxtil.
No Brasil, a família dos poli(hidroxialcanoatos) – PHAs tem um papel muito
importante no setor de desenvolvimento de polímeros biodegradáveis. O PHB
e o copolímero PHBV, mais especificamente, são polímeros produzidos no
Brasil por meio de uma tecnologia desenvolvida pelo Instituto de Pesquisas
Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) [26]. Esta tecnologia é baseada
na conversão microbiológica de bactérias do gênero alcalígenes, que
consomem a sacarose proveniente da cana-de-açúcar, transformam parte dela
em grânulos intracelulares – que são poliésteres (com propriedades
semelhantes aos poliésteres advindos do petróleo) – e, após passarem pelo
processo de extração, separação e purificação, dão origem ao biopolímero.
A inserção de 25% de unidades de hidroxivalerato produz um copolímero PHBV
com Tm inferior à do PHB (Tm ~ 180oC) em cerca de 45oC. Esta modificação
melhora razoavelmente o processamento e as propriedades mecânicas
(resistência ao impacto), as quais são um fator negativo do PHB. Porém,
ainda se mantém a dificuldade em processar esse tipo de polímero, evitando
que este seja utilizado em uma faixa maior de aplicabilidade.
A síntese de poliésteres com ácido carboxílico e diol é apropriada para a
obtenção de polímeros com valores de Tm acima da temperatura ambiente,
temperatura essa requerida para a maioria das aplicações. Dentre eles se
encontram o PET e o poli(butilenotereftalato) – PBT, porém estes não são
biodegradáveis. Mantendo-se essas características e incorporando a
biodegradabilidade, encontra-se o poli(butilenosuccinato) – PBS, que
quando na forma de filmes possui propriedades mecânicas similares às do
polietileno de baixa densidade – PEBD. Com a incorporação de ácido adípico
na síntese do PBS, obtém-se o copolímero poli(butileno
succinato-co-butileno adípico) – PBSA. Este copolímero apresenta uma maior
biodegradabilidade quando comparado ao PBS por causa da sua menor
cristalinidade [14]. O poli(e-caprolactona) – PCL é também um poliéster
biodegradável bastante usado em aplicações que não exigem temperaturas
muito elevadas, pois sua Tm é de aproximadamente 60oC. Este é sintetizado
pela conversão química do óleo cru, seguido de polimerização por abertura
de anel.
O poli (álcool vinílico) – PVA é o único polímero solúvel em água, tendo
exclusivamente átomos de carbono em sua cadeia principal, e é considerado
biodegradável. Um outro polímero solúvel em água é o poli(N-vinil-2-pirrolidona)
– PVP, contudo poucos trabalhos se empenharam em verificar a sua
biodegradabilidade. Os polímeros biodegradáveis solúveis em água são
obtidos do ácido acrílico, anidrido maléico, ácido metacrílico e várias
combinações desses monômeros. Porém, apenas seus oligômeros são
biodegradáveis.
Atualmente, muitos grupos de pesquisa vêm se dedicando ao estudo de
preparação de blendas à base de polímeros biodegradáveis [16-23, 27-29]. A
atenção dada a estas pesquisas está relacionada com o melhoramento do
desempenho de algumas propriedades dos polímeros, tais como
processabilidade [17], propriedades mecânicas [16, 17, 19, 21, 22],
propriedades térmicas [28, 29] e aumento da biodegradabilidade de um dos
componentes da blenda [18, 29]. Outro campo de pesquisa que está sendo
bastante explorado é a preparação de nanocompósitos poliméricos
biodegradáveis [30-47]. Após décadas de desenvolvimento de fibras
artificiais, como fibras de carbono e de vidro, as fibras naturais, como
fibras de juta, rami, sisal etc, vêm se destacando como material de
substituição das fibras artificiais.
Algumas empresas anunciam que conseguem transformar polímeros
conhecidamente não-biodegradáveis, tais como PP e PE, em produtos
biodegradáveis por meio da inserção de algum tipo de aditivo pró-oxidante.
Alguns representantes da comunidade acadêmica mundial também têm publicado
alguns artigos sobre o tema [48-53]. Esses artigos apresentam estudos
relativos à presença de aditivos pró-oxidantes e/ou amido em poliolefinas,
contudo, a maioria deles apenas avalia modificações em propriedades
mecânicas, massa molar, aparição de novos grupos químicos, crescimento de
colônia de fungos e bactérias, deixando de lado os reais testes de
avaliação de biodegradabilidade, como perda de massa e emissão de CO2. Um
dos únicos artigos que avaliam corretamente a biodegradabilidade desses
materiais é o trabalho desenvolvido por Chiellini et al [53], que mostra o
grau de mineralização e emissão de CO2 de amostra de polietileno de baixa
densidade com adição de pró-oxidantes. Contudo, apenas avaliam as amostras
após serem submetidas a um tratamento térmico. Em recente pesquisa,
Fechine e colaboradores [54] mostraram que a adição desse tipo de aditivo
no polipropileno apenas acelera o processo fotodegradativo do PP,
diminuindo massa molar mais rapidamente e inserindo uma maior quantidade
de novos grupos químicos na sua estrutura. A conclusão desta pesquisa leva
a crer que a inserção de algum tipo de aditivo pró-oxidante pode não
alterar a biodegradabilidade de um polímero dito não-biodegradável, e o
uso deste aditivo deve ser seriamente monitorado e avaliado mediante
normas técnicas apropriadas, como as normas da ABNT NBR 15448-1
“Embalagens plásticas biodegradáveis e/ou de fontes renováveis Parte 1:
Terminologia” e a NBR 15448-2 “Embalagens plásticas biodegradáveis e/ou de
fontes renováveis Parte 2: Biodegradação e compostagem – Requisitos e
métodos de ensaio”, que avaliam a biodegradabilidade de embalagens
plásticas.
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