|
|
|
Técnica |
A
Era dos Polímeros Biodegradáveis
Guilhermino J. M. Fechine |
O modelo de crescimento econômico que vem sendo usado atualmente gera
enormes desequilíbrios; um nível de riqueza e fartura no mundo nunca
alcançado, porém, a miséria, a degradação ambiental e a poluição aumentam
a cada dia. Diante desta constatação, surge a ideia do Desenvolvimento
Sustentável (DS), buscando conciliar o desenvolvimento econômico com a
preservação ambiental e, ainda, combater a pobreza no mundo. O
desenvolvimento em harmonia é exatamente o que propõem os estudiosos em DS,
que pode ser definido como “equilíbrio entre tecnologia e ambiente,
relevando-se os diversos grupos sociais de uma nação e também dos
diferentes países na busca da equidade e justiça social”. Para ser
alcançado o DS, a proteção do ambiente tem que ser entendida como parte
integrante do processo de desenvolvimento e não pode ser considerada
isoladamente [1].
De acordo com o relatório da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB),
realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no
ano 2000, em 24 horas o Brasil produz 230 mil toneladas de resíduo sólido
[2]. Essa superprodução de lixo veio diante das mudanças de hábito entre
os brasileiros. Por exemplo: nos anos 60 e 70, os brasileiros produziam a
maioria dos alimentos em casa, enquanto que nos dias atuais compra-se
quase de tudo em supermercados, crescendo assim o número de embalagens
plásticas, de papéis, depósitos de vidros e metais que são descartados
após o uso. Essa quantidade de lixo gerada pode levar a uma série de
problemas, já que o meio ambiente leva muito tempo para decompor alguns
detritos provenientes de descartes industriais e domésticos. A Composição
do Resíduo Sólido Urbano (RSU) se divide em: resíduos orgânicos, que
correspondem a 60% do lixo coletado; materiais recicláveis, 35% do lixo
(papel, metais, vidros, plásticos, alumínio etc) e resíduos não
aproveitados, 5% [3]. A reciclagem dos resíduos sólidos é fonte de
empregos e uma questão muito debatida em todos os países dos cinco
continentes, já que se pode obter uma série de benefícios como a melhoria
na limpeza das cidades, diminuição da poluição do solo, da água, do ar e,
também, evita o desmatamento.
Dentre os diversos tipos de RSU, os materiais poliméricos apresentam-se
com um volume cada vez maior em sua composição. Em razão dessa crescente
utilização de materiais poliméricos por químicos, engenheiros, cientistas
em geral, entre outras áreas, propõe-se que vivamos a Era dos Polímeros.
Os polímeros se dividem em: os de ocorrência natural e os obtidos por
alguma rota de síntese, porém os princípios científicos aplicados a eles
são os mesmos [4]. O diferencial entre os polímeros se encontra na sua
aplicabilidade, sejam plásticos, fibras e elastômeros ou borrachas. Na
sociedade contemporânea, os polímeros vêm substituindo gradualmente os
materiais convencionais em quase todos os setores da economia, não só por
seu baixo custo, mas também em consequência do desenvolvimento contínuo de
sua funcionalidade. Apesar do apelo visual comercialmente interessante,
são as suas propriedades físicas e químicas que os fazem tecnologicamente
atraentes. Todavia, são estas mesmas propriedades que os tornam vilões do
meio ambiente. Os polímeros degradam-se por vários mecanismos e essa
deterioração pode dar-se de forma gradual ou mais rapidamente. Em
particular, os polímeros formados por hidrocarbonetos são resistentes ao
ataque químico e biológico, de tal forma que isso lhes assegura
longevidade mediante micro-organismos. Dada a principal propriedade da
grande maioria dos polímeros, a durabilidade, um sério problema acompanha
o homem contemporâneo: a enorme quantidade de resíduos produzidos nas
comunidades sociais, principalmente nos grandes centros urbanos. Esses
resíduos, constituídos, em grande parte, por produtos industrializados
produzidos por polímeros sintéticos, podem levar mais de uma centena de
anos para se decompor, provocando graves problemas ambientais, a menos que
ocorra um sério trabalho coletivo de reciclagem desses resíduos [5].
Como solução para os problemas decorrentes da poluição ambiental gerada
pelo resíduo plástico, são propostas três soluções: reciclagem,
incineração e uso de polímeros biodegradáveis (PBs). Várias são as
publicações em periódicos nacionais e internacionais que demonstram que os
diversos tipos de reciclagem e a incineração são metodologias
indispensáveis para o desenvolvimento econômico e a preservação ambiental
e de recursos naturais [6-9]. Contudo, essas alternativas sozinhas não
atendem à necessidade mundial diante do grande volume de plásticos que é
descartado diariamente. Na busca por novas soluções e como alternativa aos
polímeros convencionais, os polímeros biodegradáveis têm alçado uma
posição de destaque. Dessa maneira, as pesquisas em torno desses materiais
também têm adquirido proporções cada vez maiores. Além do aspecto
ambiental, o esgotamento inexorável da principal fonte de matéria-prima
para os polímeros sintéticos – o petróleo – implica na aceleração da busca
por alternativas industrialmente realizáveis.
|
Processo de
biodegradação de polímeros |
Especificamente, quando aplicada à área de polímeros, o termo degradação
se aplica a qualquer mecanismo que leve a danos irreversíveis de algum
tipo de propriedade. Os polímeros podem ser degradados por vários tipos de
mecanismos: fotodegradação, oxidação, termodegradação, degradação
mecânica, hidrólise, biodegradação e por meio da combinação de alguns
destes tipos de degradação, como foto-oxidação, oxidação térmica etc.
Especificamente para biodegradação, são encontradas diversas definições,
porém, na maioria das vezes não são muito claras. Neste
|
texto será usada a definição do termo biodegradação
como sendo a degradação catalisada por micro-organismos, que leva a
uma fragmentação acompanhada de danos em algum tipo de propriedade,
conjuntamente com a formação de dióxido de carbono, água e biomassa
[10]. O processo químico da biodegradação de polímeros pode ser
sumarizado pelas seguintes equações: |
 |
Existem três elementos indispensáveis para o processo de biodegradação de
polímeros no estado sólido. Estes são:
●Organismos: a base para o processo de biodegradação é a existência
de micro-organismos com ações metabólicas apropriadas para síntese de
enzimas específicas que conseguem dar início ao processo de
despolimerização e mineralizam os monômeros e oligômeros formados por este
processo;
●Ambiente: alguns fatores são indispensáveis ao processo de
biodegradação. Estes incluem temperatura, sais e umidade, sendo o último
citado o mais importante;
●Substrato: a estrutura do polímero influencia o processo de
biodegradação. Este fator estrutural inclui os tipos de ligação química,
nível de ramificação, nível de polimerização, nível de hidrofilicidade,
esterioquímica, distribuição de massa molar, cristalinidade e outros
aspectos morfológicos dos polímeros.
A biodegradação ocorre em dois estágios, despolimerização do plástico e a
mineralização. A despolimerização ocorre por meio da quebra das ligações
poliméricas por clivagem, como consequência ocorre a fragmentação do
material. Durante esta fase há um aumento da área de contato entre o
polímero e os micro-organismos, e em seguida inicia-se a decomposição das
macromoléculas em cadeias menores. Esta etapa ocorre na superfície da
amostra em razão do tamanho da cadeia polimérica e sua natureza insolúvel.
Enzimas extracelulares são responsáveis pela clivagem das cadeias
poliméricas. Essas enzimas podem ser endoenzimas (responsáveis pela
clivagem randômica das ligações internas da cadeia do polímero) ou
exoenzimas (responsáveis pela clivagem sequencial nas unidades monoméricas
terminais da cadeia principal). A segunda etapa, a mineralização, ocorre
quando os fragmentos oligoméricos são suficientemente pequenos para serem
transportados pelo interior dos organismos onde eles são transformados em
biomassa e, então, mineralizados. Com base nesse processo de mineralização,
são produzidos gases (CO2, CH4, N2 e H2), água, sais minerais e novas
biomassas [10].
Uma das disposições finais mais adequadas para os plásticos biodegradáveis
é a sua utilização em usinas de compostagem. A compostagem é um processo
biológico de decomposição de matéria orgânica que pode estar
contido em restos de origem animal ou vegetal. Este processo envolve
transformações extremamente complexas de natureza bioquímica, promovidas
por milhões de micro-organismos do solo que têm na matéria orgânica in
natura sua fonte de energia, nutrientes minerais e carbono. Por essa
razão, uma pilha de composto não é apenas um monte de lixo orgânico
empilhado ou acondicionado em um compartimento, é um modo de fornecer as
condições adequadas aos micro-organismos para que esses degradem a matéria
orgânica, tornando disponíveis os nutrientes presentes. O produto final
resultante do processo de compostagem, composto ou húmus, pode ser
considerado como um enriquecedor do solo.
Dentre os benefícios proporcionados pela existência dessa cobertura morta
no solo, destacam-se:
■ Estímulo ao desenvolvimento das raízes das plantas, que se tornam mais
capazes de absorver água e nutrientes do solo.
■ Aumento da capacidade de infiltração de água, reduzindo a erosão;
■ Mantém estáveis a temperatura e os níveis de acidez do solo (pH);
■ Dificulta ou impede a germinação de sementes de plantas invasoras
(daninhas);
■ Ativa a vida do solo, favorecendo a reprodução de micro-organismos
benéficos às culturas agrícolas.
|
|