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Brasil avança na reciclagem de PET e mantém
2a posição
Se as autoridades
públicas sentissem vergonha da própria inoperância e omissão em relação aos
assuntos de interesse da sociedade brasileira, elas teriam um motivo
adicional para corar. A despeito da insignificância dos sistemas nacionais
de coleta seletiva de resíduos sólidos urbanos, o Brasil reciclou, em 2008,
253 mil t de resina PET, mantendo sua posição como um dos maiores
recicladores mundiais do poliéster, atrás apenas do Japão.
O dado consta do 5º Censo da Reciclagem do PET no Brasil, realizado pela
Noûs Consulting a pedido da Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet).
O estudo revelou que, de todas as embalagens de PET consumidas no país,
54,8% foram recuperadas por meio da reciclagem, uma alta de 9,5% em relação
ao índice apurado em 2007, quando 231 mil t de poliéster foram reprocessadas.
Os números são significativos, principalmente ao levarmos em consideração
que o líder, o Japão, recicla 69,2% de suas embalagens de PET, mas amparado
por um eficiente sistema público de coleta seletiva, presente em
praticamente todas as cidades do país. No Brasil, por outro lado, as
estimativas sérias apontam para uma fração de apenas 5% dos municípios
beneficiados por sistemas estruturados de coleta seletiva.
Como explicar, então, o desenvolvimento da cadeia de reciclagem por aqui?
Primeiro, a pobreza é um forte “incentivo” para a atividade de coleta, uma
alternativa de fonte de renda para os miseráveis. Além disso, o Brasil,
segundo Auri Marçon, presidente da Abipet, é líder mundial em quantidade de
aplicações da resina reciclada, consumindo internamente a maior parte de sua
produção, enquanto que em outros grandes recicladores, como EUA, Europa e o
próprio Japão, a destinação principal do plástico revalorizado é a
exportação.
Os dados apresentados por Leandro Fraga, diretor da Noûs Consulting, também
revelam que a produção de fibras têxteis continua sendo a maior aplicação do
PET reciclado, com uma fatia de 38% no consumo da matéria-prima revalorizada.
A fabricação de resinas insaturadas e alquídicas vem em seguida, com 18%, e
laminados e chapas ocupam a terceira posição, com 15%.
Fraga afirmou que a capacidade instalada de reciclagem de PET continua
crescendo no Brasil, e ela nunca foi o gargalo a frear a expansão do setor.
O diretor estima que, caso fosse necessária uma expansão rápida e
substancial da capacidade instalada, as empresas nacionais conseguiriam
realizá-la com uma certa facilidade, pois já dominam a tecnologia, e o
investimento é relativamente baixo, em comparação a outros processos
industriais. A capacidade instalada atualmente no Brasil é de 275 mil t/ano.
Com uma taxa de ocupação de 92%, ele explica outro dado apontado no 5º
Censo: a intenção de 66% do setor de investir nos próximos 12 meses. Na
avaliação de Fraga, caso houvesse um sistema nacional de coleta seletiva, a
demanda pela resina reprocessada no Brasil poderia chegar a 400 mil t/ano.
“Os consumidores estão ávidos por utilizar mais PET reciclado”, disse. A
busca é tamanha que, também por conta da valorização do real, o PET
reciclado brasileiro se tornou um dos mais caros do mundo. O problema é que,
para crescer além do estágio atual, o consumo precisa de um salto de oferta
que não pode ser oferecido pelos catadores. É o Poder Público que precisa se
coçar: PET a ser coletado há; o que falta é o sistema de coleta.
Proliferação de PLs – Se ainda não conseguiram cumprir com a missão
de aprovar uma política nacional de resíduos sólidos, por outro lado, nossos
ilustres representantes têm se esmerado em produzir projetos de lei,
abordando a temática da reciclagem, no mínimo esdrúxulos. Alguns desses PLs
pretendem repassar à iniciativa privada a responsabilidade pela coleta do
lixo plástico; outros, lunaticamente otimistas, querem impor taxas de
reciclagem superiores às praticadas em alguns pequenos países da Europa,
ignorando que nesses países a coleta seletiva se estende por quase todo o
território nacional. Para a Abipet, o projeto de lei que merece atenção é o
da política nacional de resíduos sólidos, em discussão há 18 anos no
Congresso Nacional. Na visão de Auri Marçon, a questão do lixo exige uma
solução que contemple o país por inteiro, em vez de legislações locais
válidas apenas nos estados ou municípios que as criarem. Desse modo, as
esperanças da Abipet acerca da criação de um sistema nacional de coleta
seletiva se concentram na discussão do projeto de lei em Brasília. Otimista,
Marçon diz que os acertos progrediram no Planalto Central, e que a discussão
teve um avanço inédito no último ano, superando até as suas próprias
expectativas. “Nós atingimos índices de reciclagem de PET difíceis de serem
atingidos até por países com altíssimo desenvolvimento. A indústria de
reciclagem de PET é uma realidade no Brasil, e a maior parte das aplicações
ainda não foi explorada em sua totalidade. O problema é que falta
matéria-prima. Essa é a maior discussão da indústria hoje”, comentou.
Márcio Azevedo
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