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Altos sólidos – Esse conjunto de atributos acaba direcionando os
polímeros termofixos para peças externas de grandes dimensões, sujeitas a
esforços mecânicos intensos, afinal ônibus e caminhões transportam maior
peso que veículos de passeio, e geralmente são utilizados por mais tempo.
Porém, além da desvantagem ligada à reciclabilidade, as resinas termofixas
costumam ter mais dificuldade que um termoplástico para atingir o
acabamento superficial classe A, assim chamado pela indústria – embora o
acabamento de alta qualidade possa ser obtido também com termofixos. E
como as exigências por melhores acabamentos têm se intensificado, o
fornecimento de resina fica sujeito a um trabalho constante de atualização
tecnológica. Uma saída adotada pela indústria é empregar aditivos que
reduzem ou eliminam a contração volumétrica da resina, uma vez que
problemas no acabamento, como ondulações e outros defeitos da superfície
estão normalmente relacionados com o fenômeno. Modificações nas cadeias
poliméricas também podem ser utilizadas para adequar as resinas ao padrão
mais exigente.
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Por conta do recrudescimento da questão ambiental nas
atividades fabris, outro ponto de aprimoramento das resinas poliéster
insaturadas é a elevação de seu teor de sólidos, como explica Antonio
Carnizelli, gerente técnico da Cray Valley, uma divisão de polímeros
do grupo francês Total. A companhia entrou no país no final da década
de 90, comprando uma empresa local, e fornece, entre outros,
poliésteres com base em DCPD (diciclopentadieno), um petroquímico que
permite resinas para laminação com teores de cerca de 65% de sólidos,
ao passo que materiais |

Carnizelli: resina tem maior teor de sólidos |
convencionais para a mesma aplicação exibem teor próximo de 58% de
sólidos. O segredo da redução está na substituição do ácido maleico pelo
DCPD em partes da cadeia polimérica, levando a cadeias com peso molecular
e viscosidades inferiores, e menor necessidade por estireno, o solvente
indesejado. O ganho de cerca de sete pontos percentuais no teor de
sólidos, afirma Carnizelli, contribui para uma menor emissão de solvente
durante a transformação da resina. “É uma característica importante para
moldes abertos, mas a resina com base em DCPD está sendo usada até em
moldes fechados, pois eles também geram voláteis, embora em menor
quantidade”, diz o gerente. Carnizelli reforça a predominância dos
materiais termofixos em veículos de maior porte, como os caminhões, mas
lembra de exemplos de aplicação de SMC em veículos leves no mercado local:
o conhecido exemplo da porta traseira do utilitário Pajero, da japonesa
Mitsubishi, e um caso mais antigo, a traseira do Tipo, da italiana Fiat.
Pesa contra o SMC, para ele, o fato de a chapa de compósito ainda custar
mais caro que as chapas de aço, e o BMC acaba tendo utilização maior. Os
caminhões, por sua vez, utilizam mais peças produzidas por RTM
convencional e RTM light, pois o ritmo de mudanças no design dos modelos
atuais é acelerado, forçando a troca dos moldes. Como as ferramentas para
SMC e BMC são mais caras que as destinadas ao RTM, em especial quando a
comparação se dá entre molde de metal e molde de compósito, o
transformador prefere optar pelo RTM, pela implicação de menor custo, e
ainda pela maior agilidade na alteração de desenho. Apesar das diferentes
propriedades mecânicas obtidas pelos três processos de molde fechado, as
formulações do compósito podem ser alteradas para que se alcance o mesmo
desempenho com processos diferentes, afinal, o processo pode mudar, mas o
requerimento se mantém o mesmo. Parachoques, estribos e capôs, diz o
gerente, são fabricados com sucesso pelo processo de RTM.
Carnizelli engrossa o coro da busca de soluções para a reciclagem de
termofixos. Uma das iniciativas que produtores de resinas tomaram, no
sentido de tornar seu produto mais palatável ambientalmente, foi utilizar
PET reciclado de garrafas em substituição ao anidrido tereftálico. Na
reciclagem do compósito propriamente dita, a indústria já sabe que o
caminho deve estar na moagem dos materiais, para uma posterior utilização
como reforço. Mas um dos problemas que atrapalham essa ideia decorre do
fato de que a resina curada apresenta um resíduo de peróxido, utilizado
como catalisador, não consumido. A presença do resíduo implica partes da
resina com menor dureza e que não se prestam adequadamente à moagem. A
saída seria obter resinas em que a polimerização se concretiza em toda a
sua extensão, sem restar peróxido não reagido, o que viabilizaria a
moagem. O emprego do produto moído na produção de asfalto chegou até a ser
estudado, mas esbarrou no temor de que o peróxido residual pudesse
contaminar lençóis freáticos.
As diretrizes ecologicamente corretas também pressupõem uma maior
utilização de processos de transformação em moldes fechados, pois eles
geram menos resíduos – as famosas rebarbas. Segundo o gerente técnico da
Cray Valley, o grande volume de resíduos na transformação de termofixos
está nas perdas incorridas em processos de molde aberto, que chegam a
valores de 20%, altíssimos para padrões industriais. Na passagem para o
RTM, a perda cai para 2,3%, mas uma parte grande do mercado resiste em
mudar. O motivo é o de sempre: apesar dos ganhos de produtividade e
vantagens para o meio ambiente, o investimento inicial na transformação
por molde aberto é o mais baixo, em comparação a moldes fechados. Grandes
empresas multinacionais, produtoras de caminhões e utilitários, exigem a
segunda modalidade de moldagem, mas as empresas nacionais fabricantes de
ônibus ainda aceitam a primeira, pois as peças de ônibus são muito grandes
e encerram baixos volumes de produção. Além disso, argumenta-se que o
nível de percepção de qualidade em um ônibus não é o mesmo que em um
veículo de passeio ou um utilitário, e o próprio requisito técnico de
algumas peças não chega a ser tão elevado. O acabamento do termofixo, que
poderia ser incrementado com resinas de menor contração e maior
temperatura de deflexão térmica, é outro ponto que poderia ser melhorado,
e também fica preso ao problema de custo, no mercado local. “Se for usada
uma matéria-prima de qualidade, o termofixo atinge o acabamento classe A,
e não fica atrás do termoplástico”, diz Carnizelli, lamentando que parte
do mercado nacional não tenha o mesmo entendimento.
Oportunidades em SMC – Por motivos estratégicos, a Plascar, uma
empresa do grupo norte-americano IAC com fábricas em São Paulo e Minas
Gerais, decidiu adquirir uma operação de SMC em 2007, que até então não
fazia parte dos negócios da transformadora. A compra mirava
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um mercado formado por peças já moldadas, muitas vezes
importadas da Europa, que a Plascar recebia de montadoras e, às vezes,
de seus próprios concorrentes, com a incumbência de pintá-las e
devolvê-las, dado o estado-da-arte de sua capacidade em pintura classe
A, segundo o gerente de engenharia Márcio Tiraboschi. Com o intuito de
se verticalizar e participar com mais intensidade desse mercado, a
Plascar optou pela aquisição e se qualificou a realizar desde a
formulação do compósito até a montagem da peça, passando pela moldagem
e pintura. Tiraboschi afirma que a empresa é a maior fornecedora de
SMC para o mercado local e, salvo engano, é a única produtora
verticalizada do país e da América do Sul. |

Plascar entrará no BMC, informa Tiraboschi |
Além das chapas, a interseção da Plascar com o universo termofixo
contemplará também o BMC, pois a empresa irá partir para uma operação de
refletores de faróis feitos de BMC no último
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trimestre do ano, por exigência de um cliente que
requer especificamente este processo. Porém, mesmo próximo de começar
a produção dos refletores automotivos de BMC, Tiraboschi acredita que
a aplicação perderá muito espaço para o termoplástico nos próximos
anos.
O SMC, segundo o gerente de engenharia, é indicado para a substituição
de grandes peças de aço, em geral de utilitários e veículos pesados,
por causa de requisitos de resistência mecânica, química e
durabilidade, além de redução de peso e liberdade de design. O
carro-chefe da Plascar, nessa modalidade de transformação, é um painel
frontal exterior de caminhões da Mercedes-Benz, posicionado entre a
linha do parabrisa e a grade do motor. É uma peça com demanda por
acabamento classe A, que recebe o símbolo da empresa, e que precisa
ser tão bonita quanto possível, apesar de seu comprimento de quase
dois metros. A empresa também fabrica, para a Mercedez, coberturas de
motor, e exporta, para a Iveco, da Itália, parachoques utilizados em
caminhões feitos na Europa. Aliás, qual o segredo de uma
transformadora brasileira que consegue exportar autopeças para o
mercado do Velho Mundo? É |



Grandes frontais e parachoques moldados no processo de SMC |
questão de volumes: para as transformadoras de mercados maduros, o
volume de produção de algumas peças pode não ser interessante, mas,
perante o estágio de desenvolvimento do mercado brasileiro, o negócio se
torna atrativo.
Com a experiência de quem lida com materiais termoplásticos e
termoestáveis, Tiraboschi afirma que os termoplásticos, além de mais leves
e recicláveis, costumam permitir maior liberdade de projeto da peça,
embora essa característica se expresse com mais força em processos de
injeção, e menos nas termoformagens. O SMC, por outro lado, oferece maior
resistência mecânica e uma liberdade de design que, se não se iguala à do
plástico, supera a do aço. O SMC, porém, quando demanda elementos de
fixação, precisa optar por insertos metálicos; o acabamento classe A só é
possível com pintura, e o processo de fabricação é menos produtivo, pois
os ciclos de moldagem são maiores, em comparação aos termoplásticos. O SMC
ainda costuma ser mais pesado que o concorrente termoplástico: um
termofixo com 30% de fibra de vidro tem peso específico da ordem de 1,8
g/cm3, e o termoplástico com o mesmo teor de reforço, apenas 1,5 a 1,6
g/cm3. É uma diferença pequena, mas, levando-se em consideração o tamanho
das peças, sua participação no peso total do veículo, a potência de motor
e o deslocamento de massa, ela se faz sentir. No balanço de prós e
contras, a Plascar vê um mercado local de SMC estável, com ligeiro
crescimento, principalmente nos veículos pesados. “Muitas montadoras estão
deixando de importar o SMC para produzi-lo no país”, afirma Tiraboschi.
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