Redução de impostos para máquinas e público seleto ajudaram a NPE

Economia de energia vira
"bandeira" da feira de Chicago

Texto e fotos de Marcelo Furtado

Tudo parecia conspirar contra a última NPE, a segunda maior feira do mundo da indústria do plástico e da borracha, realizada de 22 a 26 de junho em Chicago, nos Estados Unidos. Recessão global, crise na indústria, gripe suína, enfim um verdadeiro complô internacional para contaminar de pessimismo os imensos e bem organizados pavilhões do McCormick Place. Mas o cenário não foi assim tão apocalíptico. Boa parte dos 1.851 expositores, praticamente o mesmo número da feira anterior em 2006, conseguiu encontrar motivos para justificar a participação no respeitado evento. E isso mesmo diante de corredores mais vazios do que o normal (houve queda de 30% no número de visitantes em comparação à última edição), da ausência de alguns expositores tradicionais e do fato de muitas empresas terem economizado energia na exposição, não colocando para operar suas máquinas.

A avaliação de muitos expositores, fruto de consulta pós-feira feita pela organizadora, a SPI, a Plastics Industry Trade Association, foi a de que o momento crítico provocou uma filtragem qualitativa dos visitantes. A impressão coletada em depoimentos de algumas empresas é reiterada por uma “tese” da SPI, segundo a qual os 44 mil visitantes registrados (provenientes de 101 países), número 30% menor do que o da feira anterior, não refletem redução significativa do número de empresas representadas, apenas 17% inferior ao da NPE 2006. “Isso indica que houve uma triagem nas empresas e só viajaram colaboradores com maior poder de decisão, diminuindo o número de visitantes que estão lá mais para dar uma simples olhada nos estandes”, afirmou o presidente da SPI, William Carteaux.

Mas há também explicações mais objetivas para a satisfação de parte dos expositores. O governo americano, dias antes da feira, como resultado de um lobby da indústria do plástico, criou um pacote de estímulos federais válido até o final do ano para facilitar a aquisição de bens de capital, cujo principal incentivo é um bônus de depreciação, que reduz pela metade os impostos básicos cobrados nas transações internas no país. Essas medidas, segundo o comentário de muitos expositores, criaram impactos imediatos na feira. Aliado a facilidades ofertadas pelos expositores, em alguns casos aconteceram reduções de até 60% no preço de certas máquinas. Não por menos nos últimos dias do evento era comum ver placas de “sold” (vendida) em equipamentos expostos.

Economia de energia – O cenário mundial criou algumas características únicas à NPE 2009, facilmente percebidas por quem caminhava pelos 93 mil metros quadrados de área de exposição do McCormick Place. A primeira delas, mais evidente, eram os corredores bem mais vazios do que o notado em outras edições, o que já foi explicado pelos próprios números apresentados pela organização. Uma segunda, a título de ilustração, era a quantidade de dispositivos com álcool-gel para sanitização das mãos dos visitantes, espalhados por toda a feira como medida preventiva à contaminação da gripe A. Afinal de contas, o estado de Illinois, onde fica a bela Chicago, é um dos mais afetados pela pandemia nos Estados Unidos.

Mas houve também uma característica técnica comum em grande parte dos expositores da 26ª edição da feira. Como não poderia deixar de ser em época recessiva, o discurso mais em evidência nos estandes era a adoção de recursos tecnológicos para economia de energia – insumo por sinal em taxas altas recordes nos Estados Unidos. De longe este era o principal benefício citado por fabricantes de máquinas e equipamentos. Mas da mesma forma fazia parte da divulgação de produtores de resinas, aditivos e de processos, os quais mostravam meios de se chegar a produtos finais (peças automotivas principalmente) mais leves ou compactos com as vantagens consequentes de redução de gasto de combustível e de custo de transporte. Uma outra faceta dessa tendência era a possibilidade da indústria do plástico cooperar com fontes alternativas de energia na produção de peças especiais para energia solar ou eólica.

No campo das máquinas, era vasto o repertório de empresas destacando a redução de energia. Isso em praticamente todos os segmentos: injeção, extrusão e sopro. Para começar pelas injetoras, fica até difícil escolher uma empresa para iniciar a exemplificação de máquinas mais econômicas. Mas pela atenção despertada em seu estande, com suas elegantes injetoras verdes (na cor, mas de certa forma também


Injetora Duo Pico: consumo similar ao das elétricas

no sentido figurado), vale destacar a austríaca Engel, que por sinal fazia o lançamento mundial de uma nova linha de injetoras de duas placas Duo Pico, equipada com a tecnologia híbrida Ecodrive, que atinge níveis de redução de consumo de energia similares aos das injetoras elétricas. Um modelo da máquina com 550 toneladas de força de fechamento moldava engradados no estande.

O Ecodrive utiliza acionamento hidráulico no fechamento – pelo qual um servomotor impulsiona bombas para controlar o movimento das placas e dos dispositivos hidráulicos – e unidade de injeção com acionamento totalmente elétrico. De acordo com o gerente de vendas da matriz da Engel, Franz Hinterreiter, a principal vantagem da nova linha, disponível na faixa de 500 a 770 toneladas de fechamento, além do fato de ser muito compacta, é o consumo de energia do sistema, de 45% a 60% mais econômico do que seus principais


Hinterreiter: sistema hidráulico para
durante a injeção

competidores, conforme atestado em estudo independente feito recentemente. A unidade de plastificação elétrica permite que as bombas hidráulicas sejam acionadas apenas quando há necessidade, economizando aí muita energia no sistema. “Durante a injeção, as bombas hidráulicas param de funcionar”, completou Hinterreiter. Alia-se à economia de energia o fato de a máquina hidráulica ser 15% mais barata do que as totalmente elétricas, e a competitividade da nova linha torna-se evidente.

Há outras vantagens na nova tecnologia híbrida. “Ela é ofertada em um ciclo a seco de 2,6 segundos, tornando-se a mais rápida de duas placas do mercado”, completou Hinterreiter. Além da rapidez, da concepção compacta e da economia de energia, o gerente destaca ainda nas novas injetoras a proteção garantida ao molde em virtude do não-contato entre as barras fixas e móveis, o que diminui no mínimo em 2,5% os custos totais de produção.

Destacar na feira uma máquina hidráulica de médio porte com consumo de energia similar ao das elétricas não significa que a Engel tenha esquecido as all eletrics. Pelo contrário, a empresa deu bastante destaque a dois modelos das tradicionais linhas e-max e uma da e-motion, todas em operação no estande contrastando com o clima geral de redução de custos de energia gerada na feira.


Injetora elétrica e-max: preços continuam a cair

Segundo explicou o gerente da empresa, a confiança nas elétricas é total, tendo em vista a queda contínua de preços e o fato de os ganhos de energia desses modelos pagarem o investimento em no máximo um ano e meio.

Uma e-motion de 60 toneladas moldava uma peça multicomponente (carregador) de telefone celular, com parte feita de PP e outra de borracha termoplástica (TPE), que utilizava um robô Kuku KR5 articulado para transferir e remover as peças. Havia ainda uma e-max de 110 toneladas, processando uma peça técnica de 16 cavidades de borracha líquida de silicone, e uma e-motion de 420 t com ciclo rápido moldando peça de 72 cavidades. Da linha Duo Pico, a Engel também colocou em operação uma máquina de grande porte, de mil toneladas, e processava com a tecnologia assistida a gás MuCell um painel de porta de carro.

Up-grade para poupar – Outra grande empresa que destacava a economia de energia em suas injetoras era a alemã Krauss Maffei. Aliás, o próprio slogan da empresa na feira era sugestivo: “Moldagem por injeção para poupadores de energia”. O foco do estande foi a nova série de injetoras elétricas AX, apresentada pela primeira vez nos Estados Unidos. Trata-se de uma versão até 20% mais barata do que a série EX de injetoras elétricas, voltada a aplicações-padrão de injeção.


Lepp: injetora elétrica 20% mais barata

Segundo o diretor da Krauss Maffei para os Estados Unidos e Canadá, Klaus Lepp, por enquanto serão ofertados apenas três modelos da máquina, de 80, 100 e 180 toneladas, mas em breve o range será ampliado para 50 a 350 t. Segundo Lepp, o projeto das novas máquinas foi feito em cooperação com a japonesa Toshiba, que desenvolveu a parte mecânica básica e de componentes, deixando a parte elétrica a cargo da Krauss Maffei. Essa cooperação foi fundamental para reduzir o preço das novas elétricas da empresa, deixando seu valor na América igual aos praticados pelos fabricantes japoneses, explicou o diretor.

Para chegar ao objetivo de ter uma linha elétrica mais em conta, foram feitos vários trabalhos de engenharia, tornando-as até 60% mais econômicas do que as similares hidráulicas mais modernas. Uma forma importante de reduzir o consumo de energia na série AX, por exemplo, foi projetar guias lineares precisas para as placas móveis, que permitiram que o deslizamento sofresse até 80% menos fricção do que os designs convencionais. Ainda seguindo uma outra tendência, a máquina também foi concebida como “super slim” (supermagra, em tradução direta), o que significa que ela ocupa 25% menos área para instalação, podendo assim ser facilmente adaptada como o centro de uma célula de injeção automatizada e integrada.

A Milacron fez da economia de energia uma parte de seu tema maior de exposição, a sustentabilidade, o que fez com que até o carpete do seu grande estande fosse de PET reciclado e as camisetas de seus funcionários de fibra de bambu. Marketing ambiental à parte, o destaque mesmo ficou por conta das novas opções da linha Roboshot S2001i-B de injetoras elétricas, produzidas pela japonesa Fanuc e distribuídas pela Milacron em um contrato de longo prazo.

Novos conceitos de redução de consumo de energia e de melhorias de design e construção foram adaptados aos modelos Roboshot de 55, 110 e 165 toneladas, sendo que os benefícios serão incluídos no restante da linha até o final do ano. De acordo com o diretor internacional de vendas, Michael Ferlic, as benfeitorias tornaram os novos modelos os mais econômicos da empresa. Isso por causa de um novo sistema de aquecimento do cilindro denominado ServTek TCS, com  possibilidade de redução de 35% a


Ferlic: novas Roboshot usam resistência de cerâmica que reduz consumo em até 50%

50% no consumo de energia em comparação com as tecnologias convencionais. A conquista se deve a uma nova resistência de fibra cerâmica, com capacidade maior de armazenamento da energia.

Além dos ganhos energéticos, as novas Roboshot (da qual um modelo de 165 t estava em operação na feira) também incorporaram cintos de transmissão de borracha com baixa geração de ruído em operações de alta velocidade e um sistema antivibração que proporciona, em conjunto, maior rapidez de ciclo e silêncio na operação.

 

 

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