Bastante especializados, produtores passam
ao largo da crise mundial


Texto de José Paulo Sant’Anna
e fotos de Cuca Jorg
e

Tamanho é documento? No caso dos moldes de injeção de plásticos, a resposta é sim. Ferramentas voltadas para produzir peças de grandes dimensões exigem vários cuidados diferenciados nas etapas de construção e manutenção. Não é fácil lidar com matrizes cujo peso pode chegar a 70 toneladas e cujo preço está na casa das centenas de milhares de reais.

Da escolha dos materiais à primeira extração de peças feita na máquina, os responsáveis pela fabricação dos moldes precisam estar preparados para se deparar com problemas específicos, surgidos por causa do tamanho das placas e demais componentes. No desenvolvimento dos projetos, por exemplo, é difícil contar com a ajuda de modelos das peças no tamanho natural. Recursos de última geração, como softwares de engenharia avançados, são adotados para resolver essa ausência.

O molde quase sempre precisa se utilizar de vários pontos de injeção e de câmaras quentes, recursos usados para viabilizar seu preenchimento adequado. É comum a presença de sistemas valvulados para se obter peças sem problemas de aparência. O desenho dos sistemas de refrigeração precisa ser engenhoso para reduzir os ciclos de injeção. As dificuldades proporcionadas por determinadas matérias-primas na hora da fabricação, como empenamentos, precisam ser muito bem avaliadas. “Precisamos de tecnologia dominante para realizar os projetos”, resume Antonio Oscar Oliveira, diretor-geral da fabricante de moldes Moldit, localizada em Camaçari-BA.

A estrutura necessária para usinar blocos de aço com grandes dimensões é outro obstáculo complicado. Equipamentos de grande porte, com as dimensões requeridas para formatar as placas e cavidades das matrizes, custam milhões de dólares. São os casos das fresadoras, retíficas ou das máquinas de eletroerosão, por exemplo. A construção dos “gigantes” também esbarra nas dificuldades existentes para movimentar peças com peso enorme. Não é barato montar uma estrutura de pontes rolantes capazes de carregar essas peças.

Tantos problemas influem no número de ferramentarias instaladas no mercado nacional com condições de fabricar essas matrizes. Em um mercado pulverizado como o brasileiro, no qual se calcula existirem de duas a três mil empresas especializadas no serviço, o universo das aptas a fabricar os moldes pesados talvez não chegue a uma dezena. A concorrência se acirra com a presença de empresas internacionais. “Esse é um mercado diferenciado, não existem muitos competidores nacionais. Nossa concorrência maior é com os importados”, atesta Mari Lucia Scolaro, líder de vendas da Belga, ferramentaria situada em Caxias do Sul-RS.

Os participantes desse nicho de mercado não têm muitos motivos de queixas. Nos últimos anos eles vêm se beneficiando com o aumento da procura pelos “pesados”. A indústria automobilística tem sido uma das responsáveis pela fase boa. O constante lançamento de novos modelos de automóveis cria a necessidade de fabricação de um bom número de moldes para peças como para-choques ou painéis.

Outros segmentos também impulsionam essa demanda, casos das indústrias de móveis, eletrodomésticos de linha branca e embalagens industriais, entre outras. Os problemas da economia nos últimos meses não são motivos de lamentos. “A crise não chegou por aqui”, comemora Marco Antonio Motta, diretor da ferramentaria Model Plast, de Osasco-SP. O bom número de encomendas se torna mais positivo, considerando o elevado valor agregado presente nessas matrizes.


Motta comemora imunidade à crise

Uma ressalva: desenvolver projetos de “gigantes” nem sempre é mais complicado do que de pequenos. E vice-versa. Tudo depende do formato da peça a ser produzida, do número de cavidades desejado e da matéria-prima utilizada, entre outras variáveis. Não faltam exemplos dos dois lados da moeda. Moldes de tampinhas de refrigerante ou de potes de paredes finas são mais complexos do que os de grandes baldes. Já a matriz de um para-choque não se compara com a de utensílios domésticos pequenos.

Gaúcha – A Indústria de Matrizes Belga, há trinta anos no mercado, se proclama pioneira no Brasil na produção de ferramentas de grande porte. Este é apenas um dos segmentos atendidos pela empresa, também presente no campo das menores. “Há quatro anos temos condições de fabricar moldes com até 40 toneladas de peso”, revela Mari Lucia.

A executiva destaca a procura crescente por esse tipo de produto, em especial pela indústria automobilística. “Esse tem sido um mercado muito importante para nós. Nos últimos anos surgiram muitos veículos novos”, explica. Como o plástico está cada vez mais presente nos veículos, cada lançamento exige a construção de muitos moldes. “Temos encomendas para todas as peças grandes, como para-choques e painéis”, acrescenta.

Para se manter competitiva, a empresa não tem poupado esforços. Entre as novidades, se encontra a aquisição de novas máquinas. “Acabamos de adquirir um equipamento de eletroerosão com dois cabeçotes, que nos permite fabricar macho e cavidade ao mesmo tempo”, diz a líder de vendas. A característica do equipamento a ser observada é a possibilidade de nele serem usinadas placas de 2000 mm x 4000 mm. No início do ano, a Belga já havia adquirido uma máquina de usinagem de seis eixos, na qual podem ser realizadas operações em peças de grande porte, inclusive perfurações profundas. “As perfurações são essenciais na hora de cavar os circuitos de refrigeração”, explica.

Além da compra das máquinas, outro cuidado da empresa tem sido com o treinamento da equipe de funcionários. “O pessoal precisa estar muito qualificado para esse tipo de serviço”, ressalta. A preocupação se estende para os serviços de assistência técnica. “Fornecemos aos clientes todas as instruções necessárias para a manutenção correta do molde e fazemos um acompanhamento próximo durante a sua vida útil”, relata.

Paulista – Há quase quinze anos, uma tradicional fabricante de plásticos, a Goyana, fabricante de utilidades domésticas, deixava de existir. Na época, alguns representantes da antiga empresa resolveram fundar a Model Plast. Hoje, com 52 funcionários, a ferramentaria se concentra no nicho de matrizes com peso entre 15 e 30 toneladas. “Temos uma boa situação nesse mercado, a concorrência é pequena”, conta Motta. O executivo estima a produção da empresa em 25 moldes grandes por ano. “Os maiores demoram em torno de 180 dias para ficar prontos. Os menores, 150 dias”, calcula.

A empresa é muito procurada para desenvolver projetos voltados para a fabricação de embalagens industriais, como engradados de cerveja, baldes para tintas e caixas para colheita de safras, por exemplo. Também atende às encomendas da indústria automobilística e de outros segmentos, além de prestar serviços de manutenção, cuja rapidez de execução é valiosa para diminuir o tempo de parada do molde.

Motta destaca os elevados investimentos necessários para adquirir e manter máquinas de usinagem de grande porte. “Comprei um torno CNC da Romi que me custou R$ 1,2 milhão”, informa. A empresa também conta com uma fresadora onde pode ser colocado um bloco de aço de dez toneladas, equipamento de eletroerosão para blocos de quatro toneladas e uma retífica capaz de desbastar peças com até um metro e meio de comprimento.

A especialização dos funcionários também é valorizada. O time precisa estar apto para enfrentar possíveis problemas, como projetar de forma adequada sistemas de extração de dois estágios, expediente muito usado em utensílios maiores. “É preciso muita experiência. Peças como engradados de cerveja parecem simples, mas são bem complicadas e exigem muita tecnologia”, diz.

 

 

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