Movimento antropofágico – Essa situação tende a ser provisória, pois tanto os fabricantes de embalagens quanto as universidades brasileiras têm buscado soluções para preservar melhor os alimentos. O Cetea atua intensamente no desenvolvimento e na realização de testes para avaliar a efetividade das embalagens ativas e inteligentes e tem demonstrado total familiaridade com as iniciativas internacionais. “Essa tecnologia já conta com diversas patentes, hoje à mercê de mais estudos capazes de comprovar, além de sua eficácia, a sua viabilidade econômica”, comenta Claire.

Os recursos parecem ser inesgotáveis. As embalagens podem ser dotadas de indicadores de todos os tipos, como os de maturação e perecibilidade do alimento, além de sistemas de alívio de pressão do vapor para uso em micro-ondas ou de liberação de aroma. “Essa embalagem pode liberar um aroma para aumentar a percepção de frescor do produto”, exemplifica Claire. O potencial desse mercado é gigantesco. Desenvolvimentos de absorvedores de etileno vindos do exterior existem à exaustão. As frutas e hortaliças, mesmo depois de colhidas, mantêm reações de respiração e, por isso, para elevar sua vida útil uma opção se refere à captura das moléculas desse gás. As alternativas para se chegar a isso são várias, uma das mais tradicionais se dá com a adoção de sachês, com uma concentração de permanganato de potássio, disperso em uma substância inerte e porosa.

O Brasil, segundo a pesquisadora, também pode trazer para sua realidade as diversas técnicas criadas por outros países para remover a umidade do interior das embalagens, além dos indicadores de tempo e temperatura. Esses são sistemas inteligentes que integram a exposição à temperatura ao longo do tempo. “No caso de um refrigerado, por exemplo, que deveria ser submetido até 10ºC, mas houve aumento de temperatura, a embalagem apresenta uma indicação visual, geralmente, mudando de cor, mostrando com precisão qual a condição do produto”, exemplifica. Em geral, para tanto, usa-se um rótulo, mas pode ser tinta também. Cada fornecedor conta com sua tecnologia, como por exemplo o MonitorMark, da 3M; OnVu, feito pela FreshPoint, com os pigmentos da então Ciba Specialty Chemicals; e o TT Sensor, da Avery Dennison Corporation, entre outros. “O que se pretende é não fixar a vida útil do alimento, mas ter sinalizadores que atestam sua qualidade”, afirma Claire.

Arcabouço legal deficiente é outra dificuldade local

Legislação - Quando se trata da indústria alimentícia, muitos são os pormenores a ser considerados. Em linhas gerais, busca-se minimizar a interação da embalagem com o alimento, assegurando 100% de sua integridade. No entanto, com o advento das embalagens interativas e/ou inteligentes esse conceito precisou ser revisto, sobretudo porque se passou a esperar justamente essa interação. Ou seja, se fez necessário diferenciar a migração não desejada da desejada, com base em critérios específicos e seguros. Por isso, em 2004, foi criada a primeira legislação da comunidade europeia alusiva ao assunto: a diretriz da União Europeia 1935/2004, de 27 de outubro. Mas a iniciativa não conseguia nortear os desenvolvimentos de embalagens, pois não trazia muita clareza sobre os temas abordados, o que suscitou a criação de novos parâmetros, como a publicação do Regulamento (CE) 450/2009, de 29 de maio de 2009, que propõe regras bem detalhadas e específicas. Essa recente resolução contempla desde a exata conceituação do que é uma embalagem ativa e uma inteligente, passando pela lista comunitária de substâncias que podem ser usadas em componentes ativos e inteligentes, até chegar à rotulagem e à declaração de conformidade, entre outros itens. “Esse artigo está regularizando o mercado”, atesta a pesquisadora científica do Cetea, Marisa Padula.
 

Apesar de a indústria brasileira apresentar ao longo dos anos uma inclinação para reproduzir a experiência da União Europeia, a legislação por aqui se mostra bastante falha e muito aquém deste regulamento. Por enquanto, os profissionais da área no Brasil se baseiam na Resolução-RDC, de 17 de março de 2008, que propõe o regulamento técnico sobre a lista positiva de aditivos para materiais plásticos destinados à elaboração de embalagens e equipamentos em contato com alimentos. “É necessário iniciar uma discussão sobre as embalagens ativas e inteligentes o quanto antes”, reforça Marisa. Ela prevê a adoção na indústria nacional das diretrizes da União Europeia como base, até porque se trata de um parâmetro rigoroso e respeitado mundialmente.

Antônio Carriero - ITAL

As discussões estão atrasadas e precisam começar, crê Marisa

Porém, a pesquisadora almeja muito mais. De acordo com Marisa, o Mercosul carece de normas específicas para a região, para acompanhar o hoje fraco, no entanto, promissor mercado nacional de embalagens interativas e inteligentes.

A indústria por aqui - Apesar do cenário ainda um pouco nebuloso para a introdução efetiva do conceito de embalagem inteligente e ativa no mercado nacional para alimentos, o tema está cada vez mais recorrente. Segundo os especialistas, o diálogo entre academia e indústria tem sido intenso. Na avaliação de Claire, o problema é que, muitas vezes, o alimento não tem um valor agregado muito alto, portanto, o custo da embalagem precisa ser limitado. Além disso, as tecnologias não são universais, ou seja, para cada aplicação, é necessário um tipo de solução. Por isso, à sua maneira, o fabricante de embalagem por aqui tenta oferecer alternativas para os flexíveis aumentarem sua participação na indústria de alimentos e também, obviamente, para assegurarem por mais tempo possível as características originais do produto embalado.

A Embalagens Flexíveis Diadema abastece o setor com algumas estruturas que permitem maior facilidade de abertura dos pacotes de café a vácuo, o que configura o sistema easy-open, e com embalagens dotadas de válvulas para controlar a saída de gases e impedir a entrada de oxigênio, hoje modelo amplamente utilizado no mercado de café. A fábrica produz ainda etiquetas de refechamento após a abertura dos pacotes para biscoitos e café.

Como detém 60% de participação no mercado de café, não por acaso, os principais lançamentos da empresa contemplam esse segmento. Um dos destaques é a embalagem SUP de cinco soldas, que está no mercado há cinco anos e substitui o tipo almofada com “furos” para permitir a saída dos gases pós-torrefação. No entanto, sua aceitação não tem atingido as expectativas do fabricante, pois a procura ainda está restrita aos grandes produtores de café.

Sem revelar detalhes, Angelucci antecipa um projeto em andamento na sua companhia: um desenvolvimento em conjunto com um fornecedor internacional para a criação de embalagens com materiais sequestradores de oxigênio. “A produção de embalagens ativas e inteligentes é muito incipiente por aqui, estamos trabalhando nisso, mas ainda não posso falar, pois temos contrato de sigilo assinado”, diz Angelucci.

Na opinião de Hatum, da Zaraplast, os fabricantes brasileiros de embalagem têm apresentado projetos que contemplam as exigências do consumidor, como maior shelf life, segurança alimentar, dimensional adequado e custo competitivo. A Zaraplast fez a lição de casa e tem estudado e avaliado o uso e a aplicação da nanotecnologia em seus produtos. Outro foco da companhia se trata da fabricação de embalagens flexíveis com a resina produzida com o eteno obtido do etanol de cana-de-açúcar, da petroquímica Braskem. “O desenvolvimento com o ‘plástico verde’ estará disponível em 2010”, antecipou Hatum.

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Investimento da Zaraplast gerou produtos a custos competitivos

A Zaraplast possui uma ampla gama de produtos e serviços para atender diferentes mercados. No segmento de consumo, um destaque fica por conta dos filmes coex de até sete camadas, para embalagens ativas, no caso, de atmosfera modificada. Segundo Hatum, esses produtos resultam de uma vigorosa política de investimentos adotada nos últimos três anos, em novas tecnologias. “Aumentamos a capacidade produtiva em 40%, e conseguimos desenvolver produtos mais sofisticados com custo competitivo”, diz.

 A Itap Bemis Dixie Toga traz em seu portfólio um exemplo prático de tecnologia inteligente. Trata-se de uma embalagem dotada de uma tinta termocrômica capaz de mostrar a temperatura ideal da bebida a ser servida. “Quando a cerveja está gelada, surge uma indicação no rótulo da embalagem”, explica Natalie Adler, do departamento de Marketing Corporativo da Dixie Toga. De momento, o recurso se destina ao setor de rótulos, mas pode ser incorporado também nos flexíveis. “No mercado nacional, essa tinta é usada pelas cervejarias, mas em outras aplicações ainda não emplacou”, lamenta Natalie.

O avanço da inovação em embalagens inteligentes, hoje, esbarra na fraca penetração do conceito no país. De acordo com Natalie, apesar de seu preço acessível, trata-se de uma exceção, pois outras tecnologias inteligentes

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Natalie: tinta inteligente só emplacou nas cervejarias

ainda são muito onerosas ao poder aquisitivo do consumidor brasileiro. “A embalagem inteligente é uma tendência mundial, mas o Brasil só a absorverá a longo prazo, pois os custos são altos e os projetos por aqui ainda estão em estudo, tanto pela indústria quanto pelo meio acadêmico”, explica.

Porém não é por isso que a indústria de alimentos não conta com iniciativas inovadoras. Um exemplo é o lançamento feito em maio deste ano pela Itap Bemis Dixie Toga de uma embalagem do tipo retortable pouch para molho branco da marca Fugini. O seu principal benefício se refere à capacidade de suportar rigorosos processos de assepsia em autoclaves, dando ao produto maior vida de prateleira.

A proposta de preservar as características originais do alimento por mais tempo possível também permeia outros desenvolvimentos da companhia, como o sistema patenteado de abertura e refechamento EZ Peel (easy peel, de fácil abertura) e a adoção, cada vez mais frequente, da tecnologia de multicamadas, com combinações de até sete camadas, sobretudo para o segmento de refrigerados.

Consciente de que a maior parte do consumo brasileiro advém da classe social C, Natalie fala também de um desafio da indústria de embalagens: atender aos anseios dessa fatia do mercado, com produtos capazes de oferecer um benefício de alto padrão, porém a um preço coerente com seu poder de compra. Essa ideia levada à prática se traduz na apresentação pela Itap Bemis Dixie Toga de uma embalagem flexível para o leite UHT (Ultra High Temperature), aquele esterilizado sob altas temperaturas e que prevê o consumo em até 120 dias, depois de fabricado. A novidade tem sido considerada uma alternativa à embalagem cartonada e pode ser utilizada em qualquer bebida que necessite de um sistema asséptico.

Todos esses desenvolvimentos incorporam mais qualidade ao alimento ingerido pelo consumidor brasileiro, mas, além disso, também munem o fabricante de embalagem de um trunfo capaz de diferenciá-lo em toda a cadeia produtiva. A pesquisadora Claire mostra-se otimista e aposta na capacidade da indústria brasileira de alcançar as expectativas do varejo e do consumidor final. Para ela, o que falta é o aumento de poder aquisitivo do brasileiro para viabilizar as tecnologias, pois estas estão cada vez mais conhecidas no Brasil. “Sou do tempo em que a fácil abertura das embalagens era um sonho. Hoje o sistema se viabilizou. Por isso, aposto no mercado para as embalagens inteligentes e interativas, sim”, conclui Claire.

 

 

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