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Não é só pelas mãos de instituições públicas, porém, que a nanotecnologia
está se desenvolvendo no Brasil. Iniciativas locais também estão gerando
empresas privadas envolvidas com a nanotecnologia.
É esse o caso da Nanum, de Belo Horizonte-MG. A empresa produz materiais
nanoparticulados obtidos por uma via química por ela criada, em que o
“pulo do gato” está no processo, e não nos insumos em si. Estes, “nada
muito diferentes do que pode ser oferecido por fornecedoras nacionais de
produtos químicos”, dizem J. Fernando Contadini e Tarik Della Santina
Mohallem, respectivamente, diretor-presidente e diretor de P&D da Nanum.
Propriedade intelectual – Como os outros nanoatores do mercado
local, a Nanum tem seus segredos industriais, invoca patentes, e pouco
fala sobre como obtém suas nanopartículas: reatores, equipamentos de
secagem, de mistura e instrumentos de controle rodam produtos químicos
disponíveis no Brasil – e é só isso. O portfólio, nem um pouco top secret,
exibe óxidos metálicos nanoparticulados, como aluminas alfa e beta,
ferritas e óxidos de zinco, magnésio, zircônio e cobalto. Recentemente,
foi adicionado o óxido de cobre e, em parceria, o dióxido de titânio com
prata. O parceiro? Mistério!... A Nanum também descobriu que o mercado
poderia se interessar pelos respectivos hidróxidos de seus produtos,
intermediários de sua rota proprietária, e o portfólio ganhou essa
alternativa, no caso específico da alumina.
A grande dificuldade enfrentada pelos óxidos nanoparticulados é a sua
dispersão. Micronizados, eles até se dispersam bem, mas, em dimensões
nanométricas, não. Com partículas nessa escala, a formação de aglomerados
é sempre um desafio. Na água, em solventes, ou em plásticos, é muito
difícil conseguir uma boa mistura com o pó metálico. Esse fato obrigou a
empresa a ir além da estratégia inicial de vender óxidos puros e resultou
na decisão de funcionalizar as nanopartículas, o que gerou uma linha de
óxidos compatíveis com materiais polares.
A demanda inicial pelos óxidos da Nanum veio da indústria siderúrgica.
Depois do começo promissor seguido de uma queda do consumo pelo setor, a
empresa se associou à Clamper, uma fabricante de equipamentos de proteção
a surtos elétricos (uma espécie de pararraios eletrônico) que buscava o
domínio da fabricação de componentes de seus produtos, em particular, de
um componente plástico e outro baseado em óxidos metálicos. Na época, a
Nanum tinha uma planta piloto com capacidade de produção de 1 kg/dia,
inexperiência administrativa e pouco fôlego financeiro para crescer. Após
a união com a Clamper, a Nanum, pesquisando potenciais clientes, percebeu
a possível demanda no segmento de plásticos. À planta piloto original, foi
adicionada uma linha com capacidade de produção de 10 kg/dia, que alimenta
vendas, até agora, de quantidades destinadas principalmente a testes. A
demanda ainda é baixa, e os pedidos, individualmente, rondam as ordens de
poucos quilos ou gramas. Mesmo assim, a empresa está investindo em uma
linha de produção adicional, pois o leque de aplicações é grande. Mohallem
aponta potencial de consumo do óxido de alumínio alfa (para aumentar a
resistência à abrasão) ou do hidróxido de alumínio (como retardante à
chama). Com uma superfície de contato muito maior que a das cargas
convencionais, as nanopartículas provocam mudanças mais intensas nas
propriedades do material que serve de matriz. Elas possibilitam que
propriedades semelhantes sejam obtidas com menor adição de carga, o que
costuma ter o efeito colateral de prejudicar algumas características dos
plásticos, entre elas a processabilidade. Essa redução no teor de carga
pode ser muito grande, como uma fatia de apenas 10% ou 1% da inicial. Os
óxidos de zinco, magnésio, titânio e as partículas de prata também têm
chance de utilização na indústria de plásticos, como agentes biocidas. No
caso do titânio e da prata, a empresa oferece uma solução mais acabada,
disponível em dispersões com solventes diferentes para a incorporação em
plásticos diversos. A prata, porém, é cara, e o titânio requer uma etapa
de ativação por ultravioleta. O magnésio pode ser uma alternativa mais
interessante, pois não apresenta esses inconvenientes. O óxido de magnésio
ainda parece contribuir para elevar a barreira ao oxigênio, propriedade
que está em investigação, e o de zinco ajuda a elevar a resistência ao
ultravioleta, com a vantagem de não alterar a transparência. Há
concorrentes nessa aplicação, mas eles tornam as resinas opacas, ou
escuras.
Contadini afirma que, no trato com a nanotecnologia, é comum encontrar,
durante os testes, outros efeitos positivos diferentes da característica
almejada inicialmente. Por isso, o esforço mais importante da Nanum é o de
buscar chances para testar as nanopartículas, mas isso nem sempre é fácil,
pois as indústrias nacionais ainda se mostram um pouco resistentes aos
nanoparticulados. A crise financeira, nesse sentido, até ajudou, explica
Mohallem, pois deflagrou, em alguns clientes potenciais, o interesse por
soluções que permitem a redução de custos, como acontece frequentemente
com a nanotecnologia.
Além do investimento produtivo que se desenrola, a Nanum está aplicando
recursos na sua área gerencial, justamente as duas maiores dificuldades
até a união com a Clamper. Já está decidida a criação de uma equipe focada
no atendimento ao segmento de plásticos, além de outras para tintas e
cerâmicas. Outra decisão que está para ser tomada é o fornecimento dos
óxidos nanoparticulados na forma de masterbatches, uma alternativa
interessante segundo os sinais enviados pelo mercado de termoplásticos.
São Carlos também abriga a Nanox, que, assim como a Nanum, tem origem em
pesquisadores que decidiram utilizar seus conhecimentos para a
viabilização de empreendimentos industriais.
Tecnologia nano, crescimento macro – O carro-chefe da Nanox são
aditivos antimicrobianos nanoparticulados, que conferem maior tempo de
prateleira a produtos embalados. Ao lado de alguns outros produtos, os
aditivos contribuíram para que o faturamento da empresa rompesse a casa de
R$ 1 milhão logo em seu terceiro ano de vida, segundo André Araújo,
vice-presidente de marketing. Com um perfil voltado para o desenvolvimento
de produtos inovadores, Araújo espera que a Nanox mantenha um ritmo
acelerado de crescimento, que pode culminar com um faturamento próximo a
R$ 10 milhões em 2009, se a crise financeira global permitir. A confiança
no mercado também é evidenciada pelo investimento de R$ 4,3 milhões
previsto para esse ano, que contempla tanto o produto antimicrobiano para
plásticos quanto as outras duas linhas atuais da Nanox, direcionadas aos
mercados de petróleo e gás e bioenergia. Além das nanopartículas em si, a
empresa desenvolve equipamentos, softwares e soluções para aplicações de
nanotecnologia, uma capacidade, na visão de Araújo, que a diferencia em
comparação a outras competidoras que apenas fornecem materiais
nanoparticulados.
Outra característica peculiar reside no tipo de partícula utilizada como
antimicrobiano pela Nanox, que não emprega as tradicionais nanopartículas
de prata, mas, segundo seu diretor de desenvolvimento e inovação, Maurício
Bomio Delmonte, utiliza nanopartículas cerâmicas impregnadas com pequenas
quantidades de prata, o que reduz o custo do material, em comparação à
prata pura.
Em linha com o objetivo de oferecer novos produtos ao mercado, a companhia
de São Carlos pesquisa aditivos retardantes à chama nanoparticulados
baseados em alumina. Outra frente são as nanoargilas esfoliadas por rota
química, para uso como reforço mecânico. Um produto que desperta maior
atenção, porém, são reatores para a síntese de nanopartículas. A Nanox
criou os equipamentos, inicialmente, para uso próprio, mas percebeu que
eles poderiam ter um mercado interessante em escala laboratorial, como
ocorre nas universidades e centros de pesquisa. Em comparação a reatores
convencionais usados em laboratórios, o modelo específico para síntese de
nanopartículas permite um controle maior, inclusive com o acompanhamento
da cinética das reações. “Os reatores laboratoriais até então disponíveis
no Brasil eram todos importados”, afirma Delmonte. Por enquanto, o
equipamento foi escalonado apenas até volumes de 500 ml, mas, para o
diretor de desenvolvimento de inovação, ele poderia “perfeitamente” servir
como ponto de partida para a criação de equipamentos com capacidade em
escala industrial.
Para poder atender mais eficientemente o mercado de plásticos, a Nanox
optou por uma parceria com uma empresa fornecedora de masterbatches,
compostos e serviços de Vargem Grande Paulista-SP. A Resimax, a escolhida,
passou por uma fase de investimento em máquinas extrusoras, laboratório de
análise e infraestrutura predial para produzir compostos com propriedades
diferentes das de polímeros puros, e a nanotecnologia se encaixou
facilmente nos objetivos dessa nova fase, culminando no lançamento de
plásticos com propriedades antimicrobianas na última Brasilplast. A
Resimax fabrica formulações compatibilizadas com diversos plásticos usando
as nanopartículas da Nanox, em sua própria fábrica, e fornece o aditivo
pronto para uso ao mercado de transformação. O produto ainda é muito novo,
desperta dúvida na clientela e são comuns perguntas sobre a modificação de
propriedades como cor e odor, cuja resposta é não. Por conta das
indagações, a Resimax optou, no primeiro momento, por vender o
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aditivo, e não um master, que, na opinião de Cyro
Galaso, diretor-comercial da Resimax, tornaria a venda do produto
ainda mais difícil. Mas, apesar das dúvidas do mercado, o insumo
nanoestruturado já é consumido no segmento de multifilamentos.
Utilidades domésticas, chapas, peças esterilizáveis, bandejas e
sacarias são outras das muitas aplicações possíveis. O diretor se
mostrou surpreso com o interesse despertado pelo aditivo no público da
Brasilplast. “Novas empresas nos procuraram interessadas em
nanotecnologia, e não apenas com aplicação em antimicrobianos, mas
também em retardância à chama livre de halogênios, resistência a UV e
propriedades de barreira”, informa, ressaltando que, nos três casos, a
Resimax já efetua testes em clientes com aditivos desenvolvidos por
outros parceiros, não-revelados, além da Nanox. Produtos com
disponibilidade comercial estarão disponíveis ainda em 2009. |

Galaso: surpresa com a boa recepção do mercado durante
a Brasilplast |
Embora a maior parte das aplicações de nanotecnologia em plásticos se
volte para a obtenção de novas matérias-primas, esse conhecimento também
pode ser utilizado na melhoria do processo de transformação dos polímeros.
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A Delkron, instalada na grande São Paulo, utiliza a
nanotecnologia para diminuir os elementos integrantes de câmaras
quentes, principalmente os elétricos – sensores e resistências.
Segundo o engenheiro Ney Kaiser, a empresa desenvolveu materiais que
são bons condutores de calor e bons isolantes elétricos e tornam
possíveis camadas isolantes mais finas, porém com a mesma eficiência
ou maior, causando uma redução substancial no tamanho das buchas
quentes das câmaras quentes.
A produção de peças menores representa uma economia nos custos da
Delkron, mas as vantagens não se limitam a essa. Kaiser explica que o
emprego da nanotecnologia em câmaras quentes possibilita aplicações
que antes não eram viáveis. Um exemplo: |

A bucha nanotecnológica (dir.) tem menor dimensão que a
convencional |
em moldes que possuem cavidades pequenas, muito próximas umas das outras,
não era possível utilizar os módulos convencionais de câmaras quentes. É
uma situação muito típica na moldagem de componentes eletrônicos e tampas,
que constantemente se agrava pela necessidade de moldes com maior número
de cavidades, para aumento da produtividade e redução de custos.
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