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Cuca Jorge

Fabricante local luta contra
medo da crise, concorrência
asiática e made in China
meio disfarçado
Márcio Azevedo |
O
ano de 2008 prometia deixar boas lembranças até meados de setembro
passado. As vendas no mercado interno iam bem e, se as exportações não
empolgavam o suficiente, por conta do real valorizado perante o dólar, o
consumo puxado pelos brasileiros era festejado no país. Mas, em outubro,
as estrepolias financeiras de grandes bancos e empresas, principalmente
dos Estados Unidos, precipitaram acontecimentos que assustaram o setor
produtivo mundial, trazendo para o cotidiano dos empresários a palavra
crise.
Para os fabricantes nacionais de máquinas para plástico, o resumo do ano
passado é muito parecido com essa imagem. A presidente da Câmara Setorial
de Máquinas e Acessórios para a Indústria do Plástico (CSMAIP) da
Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq),
Maristela Simões de Miranda, confirma esse panorama: “2008 ia bem até
setembro, mas em outubro o mercado interno começou a perceber uma redução
na demanda, e o mercado externo praticamente sumiu”, explica. De fato, as
vendas ao exterior, no quarto trimestre do ano passado, sofreram forte
queda, passando a representar uma fatia menor do faturamento das empresas
nacionais, ao mesmo tempo em que as próprias vendas totais, incluindo
exportações e mercado interno, também caíram. Na Maqplas, fabricante
nacional de máquinas para embalagens flexíveis, empresa da qual Maristela
é a titular da diretoria comercial, em comparação aos tempos de “glória”
do mercado externo (meados de 2006), quando as exportações chegaram a 50%
das vendas totais, o nível atual é bem menor, de, no máximo, 18%.
A deficiência nas exportações de máquinas brasileiras em 2008 é creditada
pela presidente da CSMAIP ao dólar desvalorizado. No caso da Maqplas,
Maristela afirma que até havia pedidos, propostas e interesse por parte
dos consumidores estrangeiros, mas a empresa perdeu muitos orçamentos por
não poder vender pelo preço que o mercado externo queria pagar. E por que
o mercado queria pagar tão pouco?
Como tem se tornado frequente para os brasileiros, a concorrência direta
com produtores asiáticos, notadamente os chineses, impedia qualquer
tentativa de competição. “A máquina asiática saía por um terço do preço da
similar da Maqplas”, explica a dirigente. O disparate entre os preços dos
equipamentos nacionais e os dos asiáticos era tamanho que negociações
envolvendo concorrência com os orientais eram simplesmente abandonadas,
pela impossibilidade de se chegar ao patamar de preços praticados pelos
concorrentes.
Por conta disso, se o Brasil realmente pretende elevar sua pífia fatia de
participação no comércio mundial, estimada em cerca de 1%, precisará
repensar a estrutura de custos imposta a quem produz aqui, pois até os
fabricantes europeus, cujas máquinas sempre foram reputadas como caras
demais para o poder aquisitivo brasileiro, estão se tornando mais
competitivos em preços.
O motivo dessa queda não é milagroso. Uma vez que a China está sedenta por
novos mercados e pratica preços inimagináveis, produtores de máquinas do
Velho Continente, e também do novo (os norte-americanos), estão produzindo
na Ásia e se beneficiando com custos locais de produção menores. A velha
máxima vem à tona: se não é possível combater o inimigo, junte-se a ele.
Até aí, nenhum problema. Mas a presidente da CSMAIP afirma que há
fabricantes europeus construindo partes de suas máquinas na China, porém
sem deixar claro ao mercado que possuem fábricas no país asiático. O
equipamento é feito na Ásia, retorna à Europa apenas para receber o rótulo
com a marca, e é vendido como produto europeu. Essa prática não é das mais
honestas, se considerarmos que muitos clientes preferem adquirir o produto
com procedência europeia, isto é, o fato de a máquina ter sido fabricada
na Europa ou na China é um fator de decisão. “A Maqplas fabrica uma
máquina que é vendida para a Itália, onde uma empresa italiana a
comercializa com a própria marca. O mesmo equipamento é vendido pela
Maqplas nas Américas Central e do Sul. Um cliente da América Central,
mesmo sabendo onde a máquina fora fabricada, preferiu comprar o modelo
europeu, pagando mais caro por isso, por ser um equipamento de procedência
europeia”, exemplifica a presidente.
Maristela também afirma que há fabricantes produzindo máquinas com dois
padrões, um deles, elevado, para os consumidores dos mercados com maior
poder de compra, e outro mais adequado para o mundo emergente, sem a mesma
capacidade aquisitiva. Há exemplos, segundo a presidente da CSMAIP, em que
é nítida a política, pois uma mesma máquina, exibida em feira europeia,
como a K, é oferecida ao público a um determinado preço. A mesma máquina,
exposta no Brasil, porém, chega com preço muito menor.
Compasso de espera – O saldo de 2008, apesar das exportações
fracas, e do último trimestre anêmico, é positivo, na avaliação da
dirigente. Para 2009, Maristela prefere ainda não revelar as imagens de
sua bola de cristal. O que se percebe é que o mercado está protelando
decisões para o segundo semestre. “Em uma situação de crise, esse assunto
é abordado o tempo inteiro. A crise real pode ser menor ou maior que a
propalada, mas o que se lê, vê e ouve aponta para um tamanho enorme. Mesmo
que para a sua atividade a crise não se mostre tão grande, com tanto
entendido falando de crise, como o empresário vai tomar a decisão de sair
gastando? Não dá”, explica a presidente.
Por causa desse viés psicológico, o momento é de prevenção, reforçado pela
elevação do desemprego que, segundo os números oficiais, já é fato. A
líder da CSMAIP avalia que em uma situação como a atual o potencial
comprador de máquinas opta por produzir com os equipamentos disponíveis,
utilizando a capacidade máxima das máquinas, antes de decidir pela compra
de novos bens de capital.
O medo
da crise, então, está maior que a própria? “Não estou dizendo que não
exista uma crise, mas o enfoque da mídia é muito pesado, massacrante”,
reclama Maristela. Essa cobertura focada na tragédia amedronta o
empresariado, e a primeira decisão que o empreendedor pode suspender,
antes de tomar medidas mais drásticas, é o investimento, motivo pelo
qual as compras de máquinas parecem estar sendo proteladas para a
segunda metade de 2009. Desde o início da queda nas vendas, porém, o
mercado continua se retraindo, e até o momento não dá sinais de
melhora.
A situação dos fabricantes de máquinas brasileiros também pode se
tornar um pouco mais delicada por conta de um efeito indireto,
decorrente da consolidação da indústria petroquímica nacional. O
transformador de resinas termoplásticas tem seu fornecimento de
matérias-primas plásticas restrito a dois gigantes, Quattor e Braskem.
Com os fornecedores se tornando empresas cada vez maiores, o
transformador vê seu poder de barganha em negociações comerciais
diminuindo, à medida |
Cuca Jorge

Maristela não refuta
a crise, mas vê exagero jornalístico |
que se concentra a oferta
de resinas. Na visão de Maristela, essa situação pode ocasionar o
esgotamento do limite de crédito de alguns transformadores de resinas que
se abastecem diretamente das duas grandes produtoras (os menores são
atendidos pelos distribuidores), pois é muito difícil conseguir prazos
estendidos para pagamentos nas petroquímicas, a menos que o comprador seja
outra empresa de grande porte. Em decorrência desse fato, as negociações
do transformador de resina com o fabricante de máquinas poderiam se tornar
mais duras, pois o transformador não tem como endurecer negociações com
empresas do tamanho de Braskem e Quattor.
Outro item que desperta preocupação nos produtores brasileiros de máquinas
são as importações. Computando todas as máquinas e equipamentos para a
manufatura de artigos plásticos, as importações passaram de cerca de US$
487 milhões, em 2007, para um valor próximo de US$ 616 milhões, em 2008,
alta próxima a 26%. No universo das máquinas importadas, merece especial
atenção da Abimaq o caso das injetoras, pois a associação tem questionado
os preços desses equipamentos asiáticos vendidos no Brasil. A CSMAIP está
realizando um trabalho de combate a essas importações, e Maristela
acredita que o advento do Projeto Harpia, da Receita Federal do Brasil,
criado para combater a sonegação fiscal no país, contribuíra para amenizar
a questão das importações de injetoras asiáticas. Segundo a presidente da
CSMAIP, em julho deste ano começarão a funcionar algumas ferramentas do
Harpia que tornarão mais difíceis importações fraudulentas e permitirão
maior controle sobre os produtos comercializados com o Brasil. Essa
ferramenta criará atributos a ser preenchidos nas declarações de
importação. Essa medida contribuirá para atenuar uma confusão existente na
Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), utilizada para a classificação dos
artigos importados pelo bloco e também para os produtos nas faixas de
imposto de importação. Atualmente, diversos artigos diferentes podem ser
enquadrados em uma mesma posição da NCM, e essa brecha pode ser utilizada
ardilosamente para enquadrar produtos em categorias tributárias mais
vantajosas. Com a implantação da nova ferramenta do Harpia e a existência
de mais atributos dentro de uma mesma posição da NCM, as fraudes
relacionadas a classificações inadequadas deverão ser reduzidas e, na
visão da Abimaq, dificultarão a entrada de algumas máquinas estrangeiras.
Maristela acredita que a realização da Brasilplast ajudará a melhorar o
panorama de negócios no país. O maior evento da indústria do plástico,
segundo ela, sempre movimenta a economia. “Quando o cliente vê as
máquinas, os indecisos ficam tentados a comprar e acabam se decidindo”,
crê a presidente. Além disso, na ocasião da feira, os expositores se
esforçam para oferecer condições melhores de financiamento, e há mais
oportunidades para convencer o cliente das habilidades técnicas das
máquinas, quer no próprio local de realização do evento, quer nas fábricas
próximas de São Paulo, que muitas vezes estão à disposição da curiosidade
dos visitantes da Brasilplast. “É uma oportunidade a mais criada em uma
época difícil para os negócios”, diz Maristela.
A feira também é um bom palco para as comparações entre as máquinas
brasileiras e as produzidas no exterior. Para a presidente da CSMAIP, o
competidor brasileiro tem capacitação para construir máquinas tão
qualificadas quanto as estrangeiras, mas o mercado local não paga por
isso. O cliente brasileiro, entretanto, quando compara a máquina nacional
com a estrangeira, se atém às qualidades da máquina importada para
justificar o preço que paga, mas não aceita pagar um preço mais salgado
por uma máquina brasileira que tenha as mesmas características. Falta a
definição pelo que se busca: preço ou qualidade. Maristela cita o caso de
uma máquina da Maqplas, produzida há algum tempo e, atualmente, mais
direcionada à exportação. Um modelo similar é fabricado para o mercado
interno, mas a empresa se viu obrigada a simplificar o equipamento e
reduzir seu custo, pois a clientela nacional comparava a máquina com
outros equipamentos brasileiros de menor qualidade, e reclamava do preço,
sem atinar para a melhor qualidade, acabamento e materiais empregados na
fabricação. “Não é que o produtor brasileiro não saiba fazer, é que não há
comprador”, explica a dirigente da CSMAIP.
Adeus não, até logo – Depois do terceiro mandato à frente da câmara
setorial de plástico, Maristela está de saída. Ela também já havia sido
diretora de financiamento da Abimaq, mas afirma estar cansada, após ser
conduzida à presidência da Câmara graças à renúncia de Giordano Bruno, o
então presidente. O momento da condução, segundo ela, não era o mais
adequado para as suas necessidades e, depois de muitos anos como dirigente
da associação, está na hora de dar maior atenção à Maqplas e à vida
pessoal – o que inclui curtir uma nova fase como avó. “Pretendo continuar
ajudando no que puder, participarei das reuniões, mas, a princípio, é um
ponto final na minha história como dirigente da Abimaq”, sentencia.
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