Cuca Jorge


Retração é esperada, mas setor
ainda não sente crise profunda


Márcio Azevedo

Os fabricantes de extrusoras com negócios no Brasil ainda estariam comemorando os bons resultados de 2008 se a farra financeira estadunidense, regada a derivativos, não houvesse precipitado a atual crise econômica mundial. Seja por conta de ciclos de venda e produção mais longos, que defasam os efeitos da economia real na contabilidade interna das empresas, ou pela relativa resistência que o país tem apresentado ao problema global de liquidez, os produtores de extrusoras ainda não sentem uma depressão tão profunda nos negócios quanto as notícias fazem crer.

Mesmo assim, muitos competidores concordam que o mercado, tanto o nacional quanto o de exportação, se congelou, entre outubro e dezembro do ano passado. “O mercado vinha muito bem até setembro e então houve uma boa parada por causa da crise mundial. Falta crédito para o financiamento da compra de

máquinas”, explica o gerente da divisão de extrusão da KraussMaffei na América Latina, Bruno Sommer. Ele revela que até existem projetos de investimento em diferentes partes do mundo, mas o sumiço do dinheiro conseguido a título de crédito, nos bancos, está emperrando os empreendimentos.

Na Carnevalli, o gerente-geral de vendas, Rodrigo Portes, relata que 2008 foi um ano “excepcional”, impulsionado em grande parte pelo consumo doméstico, mas a partir de novembro começou a ser sentida a redução nas vendas.

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Portes relata desempenho "exepcional" em 2008

Porém, o susto que a crise tem causado nos empresários parece ser maior que seus efeitos, pelo menos os sentidos até agora, no Brasil. Na fábrica da Rulli Standard, por exemplo, desperta a atenção do observador a quantidade de extrusoras em fabricação, que toma quase todo o espaço do galpão onde são  construídas. “Nós não sentimos muito a queda do mercado em outubro, porque vínhamos com uma carteira de pedidos cheia”, informa Luís Carlos Rulli, gerente de exportação da empresa. As vendas da Rulli cresceram 30% em 2008, em relação a 2007, e como seu ciclo de vendas e fabricação é um pouco longo, de quatro a seis meses, a fabricante ainda se beneficia do aquecimento da economia no ano passado. É uma situação parecida com o que ocorre na Miotto, que, depois de um 2008 excelente, com destaque para as extrusoras de fios e cabos elétricos e de tubos rígidos de PVC, ainda não sentiu queda no seu faturamento, embora as vendas tenham diminuído. A empresa, segundo seu diretor-presidente, Enrico Miotto, fabrica máquinas sob encomenda e tem ciclos de venda longos, com equipamentos que requerem prazos de entrega de até seis meses e, assim, só está “matando” os últimos pedidos do ano anterior agora, em março de 2009.

Outra situação um pouco atípica é a da Acmack, fabricante das extrusoras Ciola. A empresa está em uma posição, até certo ponto, na contramão do mercado, pois costumava exportar metade da sua produção, antes da valorização do real na passagem de 2007 para 2008, e acabou se beneficiando pela queda das cotações da moeda nacional, que deu novo impulso à exportação. “Por incrível que pareça, nossa situação até melhorou no final de 2008”, revela Aldo Ciola, diretor da Acmack. Ele afirma ter realizado alguns bons negócios no último trimestre do ano passado, muito em função do dólar, e também por conta de novos produtos da empresa, como as coextrusoras de PP no sistema quench, isto é, com refrigeração a água, que entram em fase de maior maturação no mercado.

As apostas estão abertas – Resta saber, após o pavor inicial dos três meses finais do ano terminado, como se comportará o mercado em 2009. Há quem diga que os economistas são muito eficientes em explicar o passado, mas tão incompetentes como qualquer mortal para prever o futuro e, nesse caso, não resta muito a se fazer, a não ser esperar pelo futuro.

A julgar pela sensibilidade dos produtores de extrusoras, 2009 deve ser um ano com o mercado mais retraído que no ano anterior, com as decisões de compra de máquinas sendo postergadas para o segundo semestre e, pelas palavras dos mais céticos, com as notícias sobre a crise sendo maiores que a própria.

Ciola pondera que uma parte dos problemas no Brasil é mais derivada da cobertura da imprensa do que de fatores reais. Ele cita o caso de um cliente que, mesmo lotado de pedidos, adiou a compra de uma extrusora por receio, uma vez que suas vendas continuavam normais.

Na KraussMaffei, cujas vendas de extrusoras se concentram principalmente no segmento de tubos de PVC, há a sensação de que o impacto da crise mundial foi menor por aqui que em outros países. Bruno Sommer confirma que já vendeu algumas máquinas em 2009. A unidade brasileira da empresa alemã vende seus produtos por quase todo o continente americano, desde a Costa Rica até a Argentina, e conta com obras em infraestrutura que poderão movimentar os clientes nessa região. Miotto ainda quer esperar para poder entender melhor como será 2009. “Pela primeira vez, em muitos anos, ainda não conseguimos fazer o nosso planejamento anual, mas nos preparamos para uma

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Sommer: impacto negativo foi menos intenso no Brasil

redução de 20% em relação ao ano passado”, diz. Sua precaução se baseia na visão de que a economia brasileira foi puxada, em 2008, pelos segmentos de construção civil, automobilístico e agricultura, sendo os dois primeiros bastante dependentes da oferta de crédito que, como se sabe, está bem menor agora; ou, pelo menos, o dinheiro está mais caro. Quem também está apreensivo com o futuro próximo é Luís Carlos Rulli, que, embora tenha seu pátio cheio de máquinas em construção, ainda não sabe se 2009 será um ano a ser comemorado ou lamentado,

mesmo tendo percebido uma retomada dos negócios depois de janeiro e fevereiro, meses, segundo ele, em que é tradicional uma queda do mercado. “Não sentimos uma retração muito grande em nossos negócios, mas a expectativa é de redução”, explica.

Comércio Internacional – As vendas de fabricantes brasileiros para o exterior foram duramente afetadas em 2008. O vilão apontado por todos foi o dólar, cujas cotações bem abaixo da faixa dos R$ 2,00 mantiveram a competitividade do produtor nacional no mercado externo prejudicada. A Rulli, tradicionalmente, mantinha exportações de cerca de 30% de sua

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Mesmo com pátio cheio, Rulli espera
 retração de vendas

produção, mas o patamar caiu para apenas 10% em 2008. Nas palavras de Rulli: “A concorrência com as máquinas asiáticas na América Latina, maior mercado de exportação da empresa brasileira, é terrível.” No momento em que a cotação da moeda estadunidense se elevou novamente para níveis próximos a R$ 2,30, a Rulli começou a retomar suas exportações, tendo fechado pedidos para México, Peru e Honduras. Além da América Latina, a empresa costuma vender para o Canadá e, em menor escala, para os Estados Unidos.

“Com o dólar a R$ 1,60 é muito difícil exportar, é difícil ter preço competitivo”, diz Ciola. Nas épocas em que o câmbio era um grande aliado das vendas para o exterior, a companhia chegou a vender metade de sua produção ao estrangeiro; no início da crise financeira, a fatia exportada bateu em menos de 20%, e agora, após uma pequena retomada, depois da apreciação do dólar perante o real, a parte da produção direcionada ao exterior ainda não passa dos 30%. Na Miotto, a melhora do câmbio também já foi notada. A cotação de máquinas para a América do Sul e a África já voltou a acontecer, e Enrico Miotto mantém esperanças de voltar a exportar em 2009, ato impossível no ano anterior por conta da falta de competitividade.

Mas, se por um lado, o dólar era impeditivo para as exportações dos brasileiros, no ano passado, era também um convite para as máquinas importadas. No entanto, o mercado é unânime em afirmar que, apesar dessa brecha monetária, não houve, no segmento de extrusão nacional, uma invasão de máquinas estrangeiras, principalmente das asiáticas, que costumam encabeçar as listas de fornecedores em casos de “invasão” estrangeira, como acontece em outro setor de transformação de resinas plásticas, a injeção.

 

 

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