RECICLAGEM

Projetos para os lubrificantes – Os frascos de PEAD pós-uso desses óleos, contaminados com esses residuais (de acordo com a ABNT NBR 10.004 – Resíduos Sólidos – Classificação, essas embalagens plásticas com residuais são identificadas como classe I, perigosas), constituem outro problema ambiental: poluem a água e o solo, e sua destinação ainda busca uma solução concreta e efetiva, a exemplo da encontrada pela indústria dos agroquímicos. Medidas nesse sentido ganham corpo e um dos melhores resultados destaca o Rio Grande do Sul, onde há mão  firme da legislação e forte atuação do Sindicato

Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom). A portaria 001/2003-SEMA/FEPAM, publicada no Diário Oficial do Estado em 13/05/2006, dispõe sobre os procedimentos para licenciamento das atividades de recebimento, armazenamento e destinação final dos invólucros de lubrificantes descartados.

Designado para acompanhar o processo, o engenheiro químico Vilson Trava Dutra Filho, do Serviço de Emergência Ambiental (Seamb) da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), relata, porém, que apenas a publicação dos procedimentos não bastou para resolver a questão. Muitas reuniões com sindicatos e distribuidores depois, a regularização do programa deu bons frutos.

De acordo com Dutra, a portaria estabeleceu, na prática, o licenciamento do sistema de coleta, armazenagem e destino final das embalagens pós-consumo dos fabricantes e distribuidores, enquanto o comércio varejista (postos, lojas de autopeças e supermercados), o de trocas de óleo e os consumidores finais da indústria e da prestação de serviços apenas armazenam as embalagens. O fluxo segue a direção inversa da distribuição do produto.


Dutra: regulamentação do programa deu bons frutos

Hoje, são 21 os fabricantes de óleo cadastrados: 14 possuem licença de operação em vigor, alguns estão em fase de regularização e outros desistiram de comercializar no Rio Grande do Sul. Dos autorizados, oito atuam com o Sindicom e seis possuem recolhimento próprio. Os vinculados ao Sindicom destinam as embalagens para quatro recicladoras autorizadas: Mauser, no Rio de Janeiro; Cimflex, em Maringá-PR; Bressan, em Canoas-RS; e Tamborsul, em Gravataí-RS. Os fabricantes que possuem recolhimento próprio endereçam os frascos pós-uso para a Winck Industrial de Embalagens, licenciada de Gravataí. Dutra contabiliza ainda 55 distribuidores cadastrados, trinta dos quais licenciados para recolher e devolver às centrais dos fabricantes as embalagens pós-uso.

A MB Engenharia recebe os frascos dos fabricantes associados ao Sindicom e a Winck, de todos os outros. A primeira possui contrato com o Sindicom para a coleta, transporte e armazenagem temporária das embalagens, depois encaminhadas para disposição final nas recicladoras igualmente homologadas pelo sindicato. Empresa de reciclagem, a Winck revaloriza os frascos recolhidos e emprega o material na fabricação de novas embalagens para produtos sanitários, químicos e mesmo de óleo lubrificante.

De acordo com o engenheiro da Seamb/Fepam, o sistema é controlado por meio dos relatórios anuais solicitados nas licenças ambientais dos fabricantes e distribuidores, e também pelos comprovantes de recolhimento que os usuários finais (postos de combustíveis, indústrias, serviços) devem apresentar no seu licenciamento. As ações, porém, não alcançam ainda o comércio varejista de baixa escala, como lojas de acessórios, de peças e oficinas mecânicas. “Temos prováveis perdas também nos usuários da agricultura, mas o programa está chegando lá por meio das licenças das atividades rurais”, diz.

Os relatórios encaminhados pela MB à Fepam informam a evolução da coleta mês a mês e ano a ano. Desde o início da coleta, em junho de 2005, até o final do ano passado, a empresa recolheu em torno de 1,7 milhão de toneladas. Em 2008, o volume atingiu quase 585 mil toneladas; contra cerca de 548 mil toneladas de 2007. Em quantidade de embalagens, a MB recolheu no período um total estimado em 30,23 milhões, ao peso médio de 55,5 gramas por unidade. Os números representam os fabricantes vinculados ao Sindicom. A MB possui depósitos de escorrimento (de óleo), prensagem e estocagem das embalagens em Canoas, sua central; em Caxias do Sul, em Passo Fundo e em Santa Maria, todos municípios do Rio Grande do Sul.

O comparativo do volume de embalagens pós-uso de óleo lubrificante recicladas pela Winck em 2007 e em 2008 surpreende pelo avanço. A empresa recebeu e reprocessou 2.584 quilos em 2007 e mais que dobrou a quantidade no ano passado, quando transformou 5.740 quilos do material.

A operação da Seamb/Fepam tem por meta aperfeiçoar o sistema ano a ano. “Tentamos identificar os pontos de estrangulamento nos relatórios dos próprios fornecedores e distribuidores. Planejamos fazer um balanço entre março e abril”, relata Dutra. Na visão dele, a regulamentação permite gerar quantidade estável de matéria-prima, motivação para atrair empresas interessadas na reciclagem.

Outros estados – A iniciativa do Sindicom para coleta de frascos pós-uso de óleos lubrificantes também contemplou a cidade do Rio de Janeiro, com o programa Jogue Limpo, implantado em 2003. Os invólucros recolhidos aí seguiam para reciclagem na Mauser, que fechava o ciclo reutilizando o material na fabricação de novas embalagens para lubrificantes. Procurada, a empresa não atendeu a esta reportagem.

O Sindicom é figura fundamental para amarrar o projeto do sistema de coleta e destinação correta das embalagens descartadas dos óleos lubrificantes em âmbito nacional e sustentar a sua decolagem, como ocorreu no Rio Grande do Sul.

A política de logística reversa embute um alto custo, que dificulta a adoção do sistema, mas não é o único empecilho. A verdade é que algumas medidas só ganham impulso com uma legislação bem estruturada e direcionada, aliada a ações corretamente norteadas pelos segmentos envolvidos. Tal foi o caminho que conduziu à implantação do modelo bem-sucedido de logística reversa para destinação das embalagens pós-uso da indústria de agroquímicos e do processo adotado para as embalagens de óleos lubrificantes no estado do Rio Grande do Sul. Há indícios de que seja esse o trajeto que o Sindicom planeja traçar para outros estados. Pela falta de definições concretas, a entidade preferiu não se manifestar sobre o andamento do projeto. Sabe-se apenas que busca uma vertente única de atuação e de legislação.

O Jogue Limpo foi implantado recentemente no Paraná, onde o programa envolveu o Sindicom, o Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis, Derivados de Petróleo e Lojas de Conveniência do Paraná (Sindicombustíveis), a Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, e o Ministério Público Estadual. Ainda embrionário (foi lançado oficialmente no início de junho do ano passado), a última estatística, divulgada pela agência de notícias do governo do Paraná, data de outubro e contabiliza recolhimento mensal da ordem de 60 mil embalagens, equivalente a 12 toneladas de plástico, na Grande Curitiba e no Litoral. O programa envolve 600 pontos de coleta, com 18 postos, concessionárias e oficinas. Os frascos inutilizados recolhidos são encaminhados a uma central de reciclagem licenciada pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAP).

Operação piloto – A região de Campinas começará em breve um projeto com perspectivas de garantir coleta mensal da ordem de 30 toneladas de frascos pós-uso de óleos lubrificantes. Essa meta deve ser obtida após três meses de operação, nas previsões de seus empreendedores: a Oil Pack e a Wisewood, ambas atuantes desde julho do ano passado. Inicialmente, a coleta abrangerá 160 postos. A operação envolve parceria com o Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo de Campinas e Região. “O piloto tem por objetivo conhecer os custos”, comenta Plínio Ghirello Filho, da área comercial e de suprimentos da Wisewood.

Após a fase inicial de teste (os primeiros três meses), a empresa planeja dobrar o volume de plástico arrecadado.


Kudrjawzew espera coletar 30 t mensais
 de frascos

A ideia é expandir o projeto para toda a região e estender a coleta também para oficinas mecânicas e concessionárias, entre outros locais. ”Nossa projeção é de, ainda neste ano, recolher entre 600 e 800 toneladas mensais”, ambiciona o presidente da Wisewood, Vladimir Kudrjawzew.

Em parceria com o Instituto de Macromoléculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IMA/UFRJ), a empresa desenvolveu uma tecnologia na qual uma parcela do óleo residual é incorporada na massa polimérica, por meio de um processo denominado extrusão reativa, transformando-a em um composto de material plástico com características de madeira, batizado de “madeira plástica”. Trata-se de um composto de blendas formulado com resinas recicladas, aditivos e fibras. “O resultado é um produto melhor que o carvalho nas propriedades mecânicas e de compressão, em especial. O carvalho só supera na flexão”, compara Kudrjawzew.


Dormente de "madeira" plástica dura
cinquenta anos

Esse composto tem como destinação principal a fabricação de dormentes para estradas de ferro (daí a comparação com o carvalho, madeira mais usada nessa aplicação). Atualmente, a empresa usa sucata

comprada no mercado, proveniente de diversos tipos de frascos de PEAD para atender às suas necessidades. A intenção, porém, é utilizar 100% de embalagens pós-uso de óleo lubrificante.

“A tecnologia desenvolvida em parceria com o IMA tem especificamente essa finalidade”, ressalta o diretor de pesquisa e desenvolvimento, Eidi Marcos Fujimaki. Porém, o composto pode ser usado, ainda, na fabricação de pallets e em outra aplicação bem interessante, em desenvolvimento: estacas para tutoramento de plantios.

A Wisewood instalou 400 dormentes para teste na malha ferroviária da Região Sudeste, para transporte de minério. Existem projetos para implantação de mais mil deles. “A dificuldade é


Plástico é boa opção para estacas de tutoramento

vencer a cultura do uso da madeira”, comenta o presidente da empresa. O avanço do produto, porém, deve ir além do preconceito e esbarrar na crise econômica. “Os negócios das ferrovias estão deprimidos, com demissão de pessoas e faturamento em queda”, lastima.

A despeito dos problemas, o presidente da Wisewood se anima com o propósito ecológico do seu negócio e ressalta a sua vantagem tecnológica, um diferencial ante as poucas alternativas para reciclar os frascos pós-uso de óleos lubrificantes e ao elevado custo para a descontaminação dessas embalagens.

Os dormentes plásticos custam mais: cerca de três vezes os de madeira nacional e uma vez e meia em relação aos importados. Embutem, porém, um cunho ecológico considerável, além de elevada durabilidade: cinquenta anos sem manutenção. “A nossa proposta abrange questões do meio ambiente, de destinação dos resíduos


Composto de reciclados também compõe pallets

– questão social dos centros urbanos, pois os resíduos estão nesses locais – e também da malha ferroviária, em relação às necessidades de volume para sua manutenção”, argumenta Kudrjawzew. A

 

 

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