Indústria redimenciona estrutura produtiva

Polo Sul
Transformadores do sul
desafiam a crise com criatividade

Texto e fotos Fernando Cibelli de Castro
 

Ao percorrer as principais regiões transformadoras de termoplásticos do sul do Brasil para medir a temperatura do atual momento pelo qual atravessa a terceira geração petroquímica do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, o sentimento é de preocupação, diante das incertezas impostas pela crise global dos mercados. Mas ninguém entrou em pânico. Dito de outra forma, os processadores de resinas termoplásticas da região mais austral do país conseguem enfrentar a crise com criatividade, algum redimensionamento produtivo e eventualmente com algum corte na estrutura produtiva.

Lusádio Freitas, sócio-proprietário da Tecnoperfil, empresa da área de extrusão de perfis direcionados a acabamento predial, com sede em Joinville-SC, lançou mão de um eufemismo ao qualificar o momento de “pequena turbulência de leve impacto”. De maneira geral, Freitas considera a crise moderada.

A Tecnoperfil registra 15% de queda nas vendas entre novembro do ano passado e janeiro. Porém, os relatórios produzidos pela área comercial detectam a retomada das encomendas a partir da segunda quinzena de março. Com isso, Freitas e os dois sócios decidiram manter inalterados os postos de empregos e as encomendas de matéria-prima. Intenciona ainda abrir novas frentes de negócios com a contratação de mais vendedores. “Nosso lema aqui é não fale de crise e trabalhe”, resume.

Para Freitas, uma pequena queda de vendas pode ser compensada com a redução de custos em áreas como consumo de energia e a diminuição de um turno de trabalho, até o mercado se normalizar. O sócio da Tecnoperfil prevê crescimento de no mínimo três por cento acima das taxas da economia até o final do ano.

A recuperação ficará por conta do desempenho do segundo semestre. Como a crise é considerada passageira, Freitas acredita ainda nos recursos de marketing para melhorar os negócios, ampliando as ações de promoção de vendas. Com efeito, a ideia é manter aquecido o mercado de pequenas lojas de material de construção civil, que não têm condições de formar estoques.

A Tecnoperfil atua praticamente sozinha com um total de 27 itens como cantoneiras de diversas cores, corrimãos, bate-macas usados em escolas e hospitais e cantoneiras de PVC flexível, para proteger crianças em paredes de pátios de escola. Essas peças também podem ser fixadas em pilares de garagem, pois protegem a lataria do automóvel das pequenas batidas. Além disso, a Tecnoperfil explora o mercado exterior. Abriu um canal de vendas na Venezuela, compradora de volumes apreciáveis de forro.

Nesse meio-tempo, a firma lançou uma linha de calhas de PVC diferente das existentes no Brasil. De acordo com Freitas, trata-se de um material de fácil montagem compatível com todas as peças de conexão do mercado. Como é uma empresa média, Freitas não esconde outra estratégia para driblar a crise. Ele quer roubar clientes de empresas maiores.

“Algumas com capital de giro para bancar demissões pararam máquinas, estocaram matéria-prima, diminuíram a produção e cortaram itens. Estou prospectando seus distribuidores e oferecendo produtos que elas não estão entregando”, confessa.


Freitas quer conquistar clientes de concorrentes de grande porte

Diante da leitura positiva em tempos de crise, a Tecnoperfil manteve o planejamento de investimentos. Sua capacidade instalada de 400 toneladas de PVC por mês será ampliada com a chegada de duas linhas novas completas de extrusão. O objetivo é dobrar a produção a cada 30 dias.

O Chief Executive Officer (CEO) da CRW, também de Joinville, Derian Campos, considera superada a pior etapa da retração dos mercados, pelo menos no segmento de injeção de peças técnicas. Como o dólar aumentou, muitos itens, antes importados, começam a ganhar espaço novamente dentro do parque

industrial nacional, principalmente na área de peças e componentes de informática e eletroeletrônicos, um dos carros-chefe da produção da CRW.

Com isso, a empresa, especializada em moldes e injeção de peças técnicas de alto valor agregado, compensou a queda de encomendas da indústria automotiva com o aumento da demanda de carcaças e componentes de impressoras. Campos projeta uma queda de 15% nas vendas do primeiro trimestre, porém assinala que a indústria automotiva, a primeira a parar, já começa a chamar funcionários de volta e a recontratar. “A Renault está parada, mas a Ford na Bahia está bombando”, compara.


Campos projeta queda nas vendas de 15%, no primeiro trimestre

A CRW produz moldes e injeta peças técnicas notadamente para todas as áreas de iluminação de automóveis, mecanismos de movimentação de vidros, espelhos, freio, direção, válvula e cinto de segurança. Alguns dos itens produzidos em Joinville entram na linha de montagem da Audi, em São José dos Pinhais, no Paraná.

Já a filial da empresa na Eslováquia abastece a fábrica da Porsche na Alemanha. A CRW tem outra filial em Guarulhos, um centro de distribuição nos EUA e um depósito em Varginha, Minas Gerais. De qualquer maneira, tudo começa por Joinville em termos de inovação tecnológica.

A planta de seis mil metros quadrados conta com 120 injetoras por acionamento elétrico, equipadas com robôs, sistemas próprios de água gelada e aquecimento do molde. Cada máquina forma uma célula operacional independente. Para Campos, paga-se mais caro por uma injetora elétrica, mas em compensação a economia de energia é de 40%.

Outro diferencial é a fabricação in house de aproximadamente 150 moldes por ano, pois, como acentua Campos, “se não tiver equipe, nem tecnologia e conhecimento, não tem como resolver o problema do molde”. Além da indústria automotiva, a CRW celebra uma carteira de clientes nada desprezível, como a Whirlpool, detentora das marcas líderes de linha branca no país, e a Empresa Brasileira de Compressores (Embraco). Além disso, a CRW atende a WEG Motores, a Hewlett-Packard, entre outras empresas de alta tecnologia.

Na opinião de Rubens Travi, CEO da Autotravi, de Caxias do Sul, empresa pioneira na usinagem de plásticos de alto desempenho no Brasil, a crise foi atenuada no segmento plástico porque os empresários estão calejados e souberam se antecipar. Travi considera o momento complicado, mas garante ter dominado a situação com o redimensionamento da empresa. Promoveu alguns cortes em dezembro e suspendeu a compra de matérias-primas de produtos com encomenda em baixa.

A Autotravi opera com extrusão e injeção de peças de polipropileno, polietilenos, poliamidas, PEEK, PPSU e PPE. Ainda emprega acetal, policarbonatos e poliuretano termoplástico, sobretudo para a indústria de máquinas pesadas. Como a safra de verão foi gorda em todo o país, Travi prevê o aumento das

encomendas das fábricas de implementos agrícolas, pois, em sua opinião, o setor primário terá de investir em maquinários novos para dar conta da colheita.

Ele processa também o polietileno de ultra-alto peso molecular usado na fabricação de esteiras industriais, utilizadas principalmente em fábricas de celulose, bebidas, mineração e silos de grãos. De acordo com Travi, a nova fronteira do PEUAPM são as partes internas de caçambas para caminhões empregados em transporte de minérios, pois facilita expressivamente a limpeza e reduz com isso o tempo de parada.


O CEO da Autotravi projeta forte demanda por plásticos de engenharia, que deverão se estabilizar em termos de preço na casa dos US$ 140,00 o quilo, em média. Igualmente, deverá crescer o consumo de plásticos de alto desempenho na base dos US$ 300,00 por quilo. Em poliamida, a menina-dos-olhos 


Para Travi, deverá crescer a demanda
de plástico de engenharia

da empresa gaúcha, responde por um tubo usinado de três metros de comprimento, 600 milímetros de diâmetro, com um orifício de 200 milímetros, o qual tem massa de uma tonelada, empregado na montagem de dutos de petróleo.

“Tire o s da crise e crie.” Essa é a receita do empresário Ademar Simoni, da Tabone, uma das principais transformadoras de plástico de engenharia e peças técnicas do sul do país, com seis plantas industriais em Caxias do Sul. Segundo Simoni, sua empresa interage diretamente com áreas de projetos dos clientes. Como define, o trabalho forte não é comercial. Com isso, a Tabone nem participa de cotação de preços.

Basicamente, os produtos da Tabone estão em todas as partes de revestimento de artefatos como móveis, bens duráveis como automóveis, e acabamento de fechaduras de refrigeradores de alta tecnologia. Somente em puxadores, a empresa responde por 500 modelos para linha branca e móveis. São 190 toneladas por mês de plásticos empregados nos processos de injeção e extrusão – 120 de poliestireno e 70 de ABS.

Os pontos altos da Tabone são a tecnologia de pintura com metalização a vácuo e o processo sem efluente  denominado DGT, ou decoração gráfica tridimensional. Com isso, é possível produzir


Simoni: receita é transformar a adversidade em oportunidade

as tampas de cosméticos em formas variadas. A impressão no rótulo ocorre em processo tridimensional, em cabines pressurizadas, sem a presença de partículas de poeira.

 

 

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