Bloco de aço fabricado pela Villares Metals

Ferramentarias devem orientar
compras em aspectos técnicos


Texto de José Paulo Sant’Anna e fotos de Cuca Jorge
 

Algumas peças plásticas são produzidas aos milhares, em ciclos muito curtos e em moldes com muitas cavidades. Outras têm grande porte, são fabricadas em pequena escala e ciclos bem maiores. E há ainda aquelas que precisam ter aparência diferenciada, impecável. A diversidade existente no mundo da transformação por injeção é imensa. Qualquer que seja o projeto, no entanto, ele precisa partir de um princípio comum. Para se obter resultados dentro do esperado, o transformador tem de contar com moldes de qualidade.

Os projetistas tomam muitas decisões para idealizar uma boa ferramenta. Uma delas é selecionar o aço a ser utilizado. Não é tarefa tão simples. Os fabricantes de aços contam com formulações bastante variadas, aptas para aplicações em moldes que vão trabalhar em diferentes condições, desde as mais amenas até as de rigor extremo. Nesse mercado, dois aços apontados como commodities são os mais utilizados. O P20 é o líder na procura. Por suas características, está presente na grande maioria dos moldes fabricados no Brasil. Com propriedades inferiores, o 1045 é recomendado para moldes pouco sofisticados, usado em matrizes voltadas para produções de número reduzido de peças plásticas. No mercado, os ferramenteiros também encontram formulações diferenciadas, algumas muito sofisticadas.

Entre os fabricantes nacionais de aços, podem ser destacados Villares Metals e Gerdau. Entre os internacionais, os nomes Böhler, Uddeholm e Schmolz-Bickenbach estão entre os citados com frequência pelos ferramenteiros de ponta. Nos casos da Böhler e da Uddeholm vale uma explicação. Apesar de pertencer ao mesmo grupo, o Böhler-Uddeholm, e de no Brasil contar com escritórios próprios de representação no mesmo prédio, as duas marcas atuam de forma independente.

A disputa entre fornecedores de aços nacionais e importadores é bastante acirrada. Até o ano passado, com o dólar bastante desvalorizado, os produtores brasileiros encontravam sérias dificuldades para conquistar a atenção dos compradores. Além disso, entre os importados são encontrados aços com características nem sempre disponíveis entre os nacionais. A briga esquenta entre os aços mais usados.

Não existem dados oficiais, mas se estima que os importados detenham em torno de 60% do mercado. Este ano, com a valorização do real, existe a possibilidade do produto nacional se tornar mais competitivo. Por outro lado, o resfriamento da economia provocado pela crise pode vir a atrapalhar as vendas. Fazer previsões sobre o desenrolar dos negócios nos próximos meses é exercício dos mais difíceis. Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer.

Um aspecto interessante desse mercado é o dos clientes fazerem encomendas pensando no futuro. Um caso exemplar ocorre com as montadoras. No final do ano passado, as vendas de veículos despencaram. Mas as encomendas de aço para matrizes feitas pelo setor não sofreram tanta influência por conta desta queda. A indústria automobilística é muito competitiva, sempre está lançando novos modelos ou renovando os antigos, e investir em matrizes voltadas para a produção de peças que no futuro vão integrar os carros é obrigação que incentiva a venda da matéria-prima das ferramentas.

Seleção - As escolhas dos aços mais adequados a ser utilizados nos moldes dependem de algumas variáveis. A tentação inicial de quem compra é sempre escolher o de menor preço. Mas essa atitude pode representar prejuízos no futuro. Para os especialistas, a escolha sempre deve ser feita baseada em critérios muito técnicos. Eles argumentam que o custo do aço na fabricação da ferramenta, em média, representa em torno de 15% a 30%. O restante é dividido entre as etapas de projeto, usinagem das peças que vão compor a ferramenta e sua montagem. É uma porcentagem baixa, que não justifica equívocos em nome da economia.

“Infelizmente, com a crise mundial, muitas empresas têm como primeira opção o preço do material”, lamenta Douglas Silva, gerente-geral de vendas e marketing da


Capelletti: escolha deve ser feita pelo custo / benefício

Schmolz-Bickenbach. Roberto Capelletti, gerente nacional de vendas da Böhler é enfático. “Em cada projeto, a escolha deve sempre recair para o aço que apresentar maior custo/benefício”, defende.

Uma tendência de mercado pode ajudar a explicar esse raciocínio. O ferramenteiro nem sempre precisa usar aços nobres para obter a ferramenta de seus sonhos. Uma matéria-prima melhor, no entanto, traz vantagens que devem ser levadas em consideração. Ela permite, por exemplo, a usinagem de placas menos espessas. Dessa forma, se obtém ferramenta mais leve e de menor dimensão, que permite a redução do tempo de resfriamento da peça durante a sua fabricação. Em outras palavras, diminui a duração do ciclo de injeção e o retorno do investimento feito com o aço pode ocorrer de forma rápida com a menor utilização das injetoras. “Os moldes ‘esbeltos’ são uma tendência, são cada vez mais fabricados”, informa Paulo Sergio Perez, gerente do centro de distribuição da Villares Metals.

Outro fator a influir na seleção é o número de peças a ser fabricadas. São diferentes, por exemplo, os casos de para-choques, produzidos em menor escala, e dos potes de margarina, injetados aos milhares. Os moldes dos para-choques, apesar de apresentar grandes dimensões, nem sempre necessitam de aços


Perez: os moldes "esbeltos" geram ciclos mais rápidos

tão resistentes, pois as ferramentas costumam ter vida útil maior do que a do produto. “No mercado automobilístico são constantes as alterações no design desta peça feitas por questões de estilo. Em curto

espaço de tempo, o molde passa a ser utilizado apenas para a fabricação de peças de reposição”, diz Giiovani Verdi Cappucio assessor técnico do centro de distribuição da Villares Metals. Já no caso dos potes, são indicados aços mais resistentes, pois os moldes são muito exigidos.

Propriedades - A dureza do material é o quesito mais importante a ser levado em conta no processo de seleção do aço. Com base nessa propriedade, Cappucio divide as várias opções de matérias-primas presentes no mercado em quatro grandes grupos. Na escala de dureza até 30 HRC, se encontram os aços de resistência menor, como o 1045. Eles compõem as ferramentas voltadas para a confecção de utensílios domésticos e outras peças cujas exigências das linhas de produção não são tão rigorosas.

Entre 30 e 34 HRC, encontram-se os P20, usados na grande maioria dos moldes fabricados por aqui. Os com dureza na faixa entre 38 e 42 HRC são indicados para moldes que exigem maior


Cappucio: alteração do design ce carros incentiva as vendas

resistência. São as ferramentas, por exemplo, construídas para  suportar a abrasividade de alguns plásticos de engenharia e de resinas enriquecidas com cargas. Acima de 42 HRC, estão os aços considerados especiais, voltados para aplicações onde é necessária resistência extrema.

Quanto maior a dureza, maior a polibilidade do aço. Os índices elevados de polimento permitem a obtenção de matrizes de peças plásticas que necessitam de aparência impecável. São os casos das lentes de faróis e lanternas dos automóveis, que têm índices de transparência tão elevados quanto os apresentados pelo vidro.

Outras características precisam ser levadas em conta na hora da seleção dos aços. Os com elevada resistência à corrosão são adequados para moldes com sistemas de resfriamento que utilizam abundantes quantidades de água. Nas operações de injeção de grandes lotes de peças de paredes finas, por exemplo, são usados os inoxidáveis. Também pode ser citada a propriedade da soldabilidade, muito útil em aços usados em moldes onde são realizadas operações de solda durante sua construção.

Nacionais - Entre os fabricantes nacionais, a Villares Metals participa do mercado com destaque. “Entre o aço nacional vendido por aqui detemos de 50% a 60% do mercado”, garante Perez. A empresa conta com a indústria automobilística como principal cliente. Entre os aços que oferece, o carro-chefe é o P20, com a marca VP20 ISO. Ele está presente em aproximadamente 85% dos moldes produzidos com as matérias-primas da empresa. O aço se encontra na faixa de dureza entre 30 HRC e 34 HRC.

“O produto tem um diferencial em relação aos similares oferecidos. Desenvolvemos um processo de fabricação que tornou o nosso P20 mais fácil de ser usinado do que os concorrentes”, diz Cappucio. De acordo com o assessor técnico, os convencionais desgastam o flanco de uma ferramenta de usinagem durante o processo de corte em cerca de 17 a 18 minutos. O da empresa eleva esse tempo para 26 minutos. “Temos um ganho de 77% no volume removido por ferramenta”, resume. Ele ressalta que esse ganho é significativo, em especial para moldes de grandes dimensões, onde é comum desbastar blocos de 18 a 20 toneladas até chegar à metade de seu peso.

 

 

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