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Europa se arma contra crise

Mesmo em um período de recessão econômica, os europeus apostam na inovação tecnológica, nas pesquisas, na reciclagem e nos biopolímeros para diferenciar-se no mercado. Apesar da crise econômica anunciada no último trimestre de 2008, a Europa permanece na liderança mundial entre os fabricantes de plásticos, sendo responsável por cerca de 25% da produção anual desse manufaturado, empregando mais de 1,6 milhão de pessoas e movimentando cerca de 300 bilhões de euros.

Entre os 27 países membros da União Europeia, além de Suíça e Noruega, a demanda por materiais plásticos registrou um crescimento de 3% no biênio 2006-2007, passando de 51 para 52,5 milhões de toneladas. A Alemanha continua sendo a líder europeia no setor, com 7,5% da produção global, seguida por Benelux (4,5%), França (3%), Itália (2%), Reino Unido (1,5%) e Espanha (1,5%).

No Velho Continente, a maior demanda por materiais plásticos é derivada do ramo de embalagens (37%), mas a construção civil, as indústrias automotiva, eletroeletrônica e médica também são outros segmentos nos quais o plástico é largamente empregado.

Outro dado interessante se refere à reciclagem. Em nove países da UE, mais de 80% dos materiais plásticos são re-aproveitados e, entre 1997 e 2005, a reciclagem dos resíduos de plásticos aumentou de 10 para 14 milhões de toneladas.

Em prol do ambiente - Nesse sentido, uma das medidas que mais influenciarão a indústria plástica europeia em 2009 é a denominada Waste Framework Directive (WFD), um acordo revisto em 2008 pelos estados membros da UE que tem como objetivo primário a prevenção e a gestão eficiente dos resíduos.

A medida prevê uma hierarquia, em termos de legislação, que coloca no topo das prioridades a prevenção, ou seja, a redução do volume de resíduos, a preparação para a sua reutilização, a reciclagem, a valorização energética e, por último, seu armazenamento.

Segundo um recente estudo realizado pela Agência Europeia do Ambiente (EEA), a quantidade de resíduos urbanos, como plástico, papel e vidro, deverá aumentar cerca de 25% entre 2005 e 2020; um dado assustador, que obriga as autoridades a adotar normativas mais rigorosas em matéria de reciclagem e as empresas do ramo a coordenar de outro modo o próprio negócio.

“O volume de resíduos tem aumentado de forma desproporcional, ultrapassando mesmo o crescimento econômico”, sustenta Stavros Dimas, comissário europeu responsável pelo meio ambiente. “É hora de modernizarmos a abordagem do problema e promovermos uma reciclagem acrescida e de melhor qualidade”, completa.

Um exemplo concreto de como as instituições europeias incentivam a indústria de plásticos a valorizar o processo de reciclagem é o novo regulamento CE 282/2008. Trata-se de uma normativa que autoriza a utilização de plástico reciclado na produção de embalagens para alimentos. A iniciativa representa uma novidade absoluta para o mercado, pois, até então, tal processo não era permitido pela UE.

O regulamento determina ainda que os materiais plásticos destinados a entrar em contato com alimentos sejam obtidos unicamente de processos de reciclagem avaliados pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA).

O papel da agência europeia é fundamental no controle do processo de reciclagem e avalia não só a qualidade dos materiais utilizados como matéria-prima durante a reciclagem como também a eficácia da descontaminação dos plásticos e o seu emprego final depois de reciclados.

Desafios - Sem dúvida, o segmento das embalagens plásticas para alimentos inicia 2009 com novos desafios pela frente e perspectivas de crescimento moderado. Na Itália, por exemplo, os especialistas estimam um incremento de somente 1,5% na demanda interna e uma inflexão de 6% nas exportações de embalagens plásticas made in Italy. O país encerrou 2008 com uma queda no consumo de plásticos superior a 5% e, segundo a associação Federchimica, para este ano é prevista uma recessão que atingirá principalmente o consumo de policloreto de vinila (-5,7%), polipropileno (- 4,6%) e polietileno (-3,3%).

De qualquer maneira, a Itália não é o único país com grandes desafios pela frente. Toda a Europa – até mesmo os produtores de bioplásticos – será cada vez mais atacada pela concorrência asiá­tica e, em especial, pela China. As previsões realizadas pela consultoria Roland Berger Strategy Consultant apontam para uma possível redução na participação europeia no mercado mundial de bioplásticos: de 40% para 25%.

Atualmente, os países da UE consomem aproximadamente 100 mil toneladas de bioplásticos; uma cifra que corresponde a 0,2% do consumo total de polímeros do continente.

O potencial do setor foi analisado pela European Bioplastics, que destacou quais obstáculos deverão ser superados pelos produtores do Velho Continente para evitar a erosão de sua cota de mercado.

Na opinião de Harald Kaeb, chairman da European Bioplastics, associação que promove anualmente uma conferência homônima, “um dos maiores esforços da indústria europeia será desenvolver propriedades que permitam o emprego de bioplásticos em bens duráveis”. Por enquanto, a maior parte dos produtos que utilizam PLA (ácido polilático) – plástico de origem vegetal – possui baixa resistência térmica e problemas de barreira; características que limitam o seu uso em setores diferentes daquele das embalagens, agricultura, higiene pessoal e catering.

Novidades - Outros desafios que ainda permanecem seriam a adoção de uma arrojada estratégia comercial para reduzir o time to market, a melhora das técnicas de produção e a definição de uma política europeia comum em matéria de bioplásticos.

Alguns avanços, no entanto, geram otimismo. É o caso, por exemplo, da empresa italiana Bio On, que conseguiu desenvolver um biopolímero obtido da beterraba, em substituição aos óleos de amido de cereais, como a maior parte dos biopolímeros comercializados.

A novidade suscitou entusiasmo porque, com este biopolímero, será possível obter mais de cem monômeros e o produto poderá ser empregado na criação de materiais termoplásticos e elastômeros com um ponto de fusão entre 40ºC e 180ºC, substituindo, eventualmente, objetos feitos de resinas obtidas do petróleo, como o PET, PP e PVC.

Outras novidades são o aparelho da Uhde Inventa Fisher para realizar o processo de polimerização utilizando ácido polilático e tecnologias que aceitam o aumento da velocidade de cristalização dos polímeros, além de filmes de PLA revestidos com óxido de silício (SiOx), como aqueles da italiana Coopbox, e a linha de embalagens para cosméticos, como a Vegetal Plastic, da empresa Leoplast. O produto possui uma transparência idêntica àquela do PET, mas uma vez utilizado pode ser depositado junto com o lixo orgânico.

Outro projeto europeu que promete novidades em 2009 é o chamado Newbone. Trata-se de uma iniciativa financiada pela UE que envolve uma equipe de pesquisadores no desenvolvimento de fibras compostas, provenientes de plástico reforçado, para substituir as próteses de aço inoxidável. “Isso significa que as suas propriedades serão perfeitamente compatíveis com o esqueleto humano”, afirma Karri Airola, pesquisador da University College di Boras, na Suécia. “A combinação de polímeros e fibra de vidro permite a criação de materiais muito resistentes”, completa.

No último biênio, a parceria entre universidade e a indústria europeia de plásticos tornou-se uma constante e o número de cursos universitários endereçados a profissionais que desejam especializar-se em materiais plásticos cresce significativamente. A universidade de Padova, por exemplo, promove o Master em Química e Tecnologia dos Materiais Poliméricos, enquanto que a Universidade de Modena organiza outro curso sobre materiais plásticos e suas propriedades. Um sinal que ilustra o potencial do setor, mesmo em uma fase de recessão econômica e timidez nos  investimentos.

 Anelise Sanchez

 

 

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