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RS investe em nanocompósitos para SBR

O Centro Universitário Feevale, do Rio Grande do Sul, deverá receber até o final do segundo semestre de 2008 investimento de R$ 460 mil com o objetivo de produzir nanocompósitos obtidos de argilas modificadas para a aditivação em borracha termoplástica SBR. O projeto, denominado “Nanocargas em materiais poliméricos flexíveis”, está vinculado ao grupo de pesquisa em materiais da instituição e sob a responsabilidade da Pró-reitoria de Pesquisa, Tecnologia e Inovação. Atualmente, o Feeevale conta com 14 grupos de pesquisa, envolvidos em 93 projetos.

O programa de nanocompósitos tem como coordenador o professor Nei Domingues. Doutor em engenharia de materiais, com ênfase em polímeros, Domingues tem passagem por uma empresa pertencente aos grupos Dupont e Dow Química. Ele tem como cooperadora a bolsista de iniciação científica Luciana Vallandro, que está em treinamento para participar dos ensaios químicos. “Busca-se a obtenção de propriedades diferenciadas que permitam que esses materiais encontrem emprego em novos mercados e também possam atuar em mercados tradicionais em substituição à borracha vulcanizada, que apresenta difícil reciclabilidade”, afirma Domingues.

Fernando C. de Castro

Domingues coordena o projeto e conta com o auxilio de Luciana

Para o pesquisador, o projeto representa avanço científico, tecnológico e ambiental. “O trabalho vai contribuir para a formação de competências nacionais, para o incremento do aporte tecnológico dos produtos e processos disponíveis no Brasil e para o aumento de competitividade das indústrias do setor”, justifica. Conforme Domingues, esse efeito ocorre graças, principalmente, às características únicas de distribuição e dispersão (esfoliação e intercalação) das partículas na matriz polimérica.

De acordo com o especialista, a vantagem da combinação de nanotecnologia com materiais estirênicos está relacionada ao fato de esses materiais serem termoplásticos e contemplarem propriedades de elasticidade das borrachas sem precisar de vulcanização, pois é impossível reciclar materiais vulcanizados.

A SBR, um copolímero em cadeia estireno-butadieno-estireno, é muito empregada na indústria calçadista como matéria-prima para solados injetados. Com efeito, pode servir para aditivação em óleos e outras peças técnicas empregadas nas indústrias automotivas e de eletrodomésticos.

A pesquisa está dividida em algumas etapas. A primeira é denominada exploratória e tem como objetivo dotar os pesquisadores sobre o potencial das nanocargas. Esta fase também é denominada pesquisa fundamental. A outra etapa irá envolver um convênio com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul para a produção das imagens em microscópios eletrônicos, nos quais é possível visualizar os materiais em dimensões nanométricas.

Depois virá a produção em escala piloto. Nesta etapa, o objetivo é validar as propriedades específicas dos materiais como resistência à abrasão, soluções estéticas e ensaios mecânicos. A terceira fase irá compreender os processos pré-industriais, ou teste de campo em injetoras. Por ora, Domingues começa a encaminhar a revisão bibliográfica e a análise de potenciais fornecedores de nanocargas.

Além disso, está em licitação a compra de um reômetro de torque por parte do Feevale. O equipamento servirá para testes com calorimetria, calor específico, avaliação gravimétrica e análise reológica. Posteriormente serão produzidos ensaios físicos, tensão, deformação permanente, compressão e rasgo.

A idéia é utilizar a nanotecnologia para resolver esses problemas muito presentes na indústria de componentes para calçados. O mercado alvo é a indústria de componentes calçadistas, mas Domingues vislumbra mercados potenciais dentro da indústria automotiva e de eletrodomésticos. Como o dinheiro é proveniente da FINEP, ele tem dezoito meses para concluir as pesquisas, a contar do final de 2008.

Domingues também é gerente de tecnologia da Prisma, a empresa parceira do Feevale no desenvolvimento dos nanocompósitos. Ele explica que procurava uma boa possibilidade de combinar um programa estratégico para o governo, para a academia e passível de aplicação pela iniciativa privada.

No seu entendimento, a indústria tende a acelerar o seu processo de desenvolvimento com base científica. “Eu vou saber quem precisa do produto e a universidade irá gerar conhecimento.” Domingues explica que já realizou estudo prévio sobre os segmentos com potencial para o consumo de SBR com reforços em nanocompósitos.

A utilização de cargas nanométricas tem despertado o interesse da indústria de insumos para calçados de maneira geral. Por ocasião da última edição da Feira Internacional de Couros, Produtos Químicos, Componentes e Acessórios, Equipamentos e Máquinas para Calçados e Curtumes (Fimec), o grupo gaúcho Killing lançou a primeira família de adesivos para calçados e acessórios desenvolvida pelos laboratórios da empresa em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS).

O presidente do grupo, Milton José Killing, revelou que investiu US$ 1,5 milhão para obter o produto, denominado “Kisafix Nano”. Sua principal característica é o aumento de 25% do poder de colagem na comparação com os demais adesivos base água convencionais.

Apesar do crescimento do interesse pelos nanocompostos, pelo menos em escala comercial, o país é dependente das nanocargas, as matérias-primas essenciais à produção de um nanocomposto. Segundo José Ademar Assunção, químico da Ouro Branco Mineração, de São Paulo, as nanocargas poderiam ser fabricadas no país, mas ainda não agregaram valor ao mercado.

Quem precisa em escala industrial prefere importar. No caso da Ouro Branco, a dimensão mínima fabricada fica entre 1,2 micra e 5 micra. “Se o mercado pedir, a empresa tem condições de fabricar nanocargas, porém os investimentos nunca foram dimensionados porque simplesmente demandariam uma unidade de processamento inteiramente nova, com equipamentos diferenciados e capacitação de pes-soal”, esclarece Assunção.

Suzana Liberman, do Centro de Tecnologia e Inovação da Braskem, em Triunfo, no Rio Grande do Sul, concorda com o químico da Ouro Branco. Responsável pela primeira patente produzida no país em nanocompósitos da indústria petroquímica, Suzana afirma que a demanda da empresa de nanocargas minerais é suprida pela importação do produto disponível no mercado mundial.

Conforme enfatiza Suzana, a preocupação da Braskem não é o desenvolvimento de tecnologia em nanocargas, mas sim adicionar esses materiais às suas resinas, como forma de conferir propriedades específicas para algumas famílias de olefínicas. Suzana conhece algumas pesquisas realizadas no país, mas argumenta que uma empresa do porte da Braskem não tem como atrasar o desenvolvimento de seus produtos por conta da inexistência de uma indústria de nanocargas em escala. “O Brasil é importador dessas matérias-primas”, mas se alguém nos apresentar um projeto interessante podemos até ajudar”, adianta a pesquisadora.

 Fernando Cibelli de Castro

 

 

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